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STOP SOPA

Acordar cupido

E foi olhando o céu
Na passagem entre o hemisfério norte e sul
Quando o mesmo fog que viu em São Francisco corria pelas asas do avião a mais de 10 mil quilômetros de altura
Que ele sentiu saudade daquela cocha carnuda entre as suas
E daqueles abraços apertados que lhe fariam falta a partir de agora

Já não havia mais o aconchego da mansarda de Boston
Nem a alegria capitalista das ruas de New York
Sobrariam as lembranças das tardes douradas no Charles River
Ou da surpresa a cada tarde na casa brasileira
Ou nos bares portugueses

Agora era retomar a vida, um trabalho qualquer, um outro amor qualquer
Voltar para o chão de terra batida
Onde as porteiras têm trancas envelhecidas
Onde as vacas ruminam suas memórias amarguradas
Onde não há rios que correm
Mas lagoas escuras que escondem lobos e traíras com seus dentes violentos

Teria q buscar o conforto no ébrio
E novamente na eterna busca para acordar cupido
Que dormia num salão do Metropolitan Museum of Art
aprisionado no mundo de morfeus

Sounds Good

eu vi a manhãzinha acontecer em boston
enquanto você me abraçava naquele dia frio de outono
eu vi os pássaros dançando no céu
dizendo q agora era novamente a hora de deixar o outro chegar
eu vi o céu azul da nova inglaterra
dando risadas de nós dois
com nossas línguas de cachorro e de diabo a nos fadar
eu tentei explicar o que era saudade
e você o que era sounds good
nem percebi q eu era a novidade
e você um enfant terrible escondido
com aquela febre
corpo queimando e esquentando meu torpor
éramos nós dois escondidos no último andar da columbus avenue
gemendo na madrugada
escutando os bêbados soltos na noite fria
eu homem por inteiro
aprendendo desde o início
com você menino professor
a minha sina é aprender pra sempre as artimanhas do amor

por Alexandre Vidal Porto – TENDÊNCIAS/DEBATES

Sempre houve gays caricatos, mas em que novela estão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis e acordam cedo para trabalhar?

Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade.

Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito, e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.

No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.

O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô, na novela “Fina Estampa”. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal (“Arrasa, bii!”), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão.

Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.

A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas, porque a homofobia ainda não é crime no Brasil.

O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.

Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.

A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo, porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância.

A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência.

Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social, que as redes de televisão têm o dever de preservar.

Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito.

Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não.

ALEXANDRE VIDAL PORTO, 46, mestre em direito pela Universidade Harvard, é diplomata e escritor

foto: Serjão Carvalho

Há 20 anos é a mesma rua de terra, nenhum olhar da prefeitura ou do estado. A mesma rua de terra com as mesmas crianças correndo. As casas ganharam pintura nova. Trabalho parece ter, salário mínimo, verdade. E continuo me perguntando diariamente para quem está chegando os benefícios da sexta economia mundial.

José Bonifácio (JB), noroeste de São Paulo, ainda é uma cidade pacata para os padrões das metrópoles brasileiras. Lugar que meu pai escolheu para viver desde o fim dos anos 80, fugindo da vida na capital. Aqui  não há teatro, não há cinema, há cerveja, funk e música sertaneja.

Os cerca de 40 mil habitantes de JB insistem em usar carros embora você possa ir de uma ponta a outra da cidade em menos de 20 minutos de bicicleta. Os rachas de automóvel ou motocicleta, o alto consumo de bebidas alcóolicas por adolescentes, deixam a certeza de que essas entranhas do estado de São Paulo guardam algum parentesco com a juventude transvidada de James Dean. Mas ainda é possível caminhar em ruas limpíssimas, tranquilas, conhecer o vizinho, fazer compras na feira, não se vê grande sinal de miséria. Nível social e qualidade de vida invejáveis, mas que andaram caindo um pouco com a chegada das usinas de etanol e o crescimento da cidade.

Andando um pouco e conversando com os amigos de adolescência é muito fácil descobrir o lado oculto do chamado progresso social. Jovens bem nascidos da classe média, agroboys, trabalhadores rurais, adolescentes surgidos em uma nova periferia não muito distante do centro, grande parte deles, sem distinção, estão envolvidos com o crack. Não me surpreendo, a história se repete em  locais como a Ilha de Itaparica ou nas cidades mais pequenas do sul do país.

Assassinatos e crimes provocados pelo maior problema de saúde pública do Brasil ainda não é frequente por estas bandas. Mas é questão de tempo. Garotos e garotas já se prostituem a troco de uma pedra de crack ou de dinheiro para comprá-la.
Chego para visitar um amigo na tal rua de terra que está na mesma há 20 anos. É a mãe dele que me dá a notícia de seu internamento. Fico chocado. Mas como ele caiu nessa? Tão inteligente, esperto, viajado, vivido. Não há explicações e tão pouco julgamento da minha parte. Fico feliz em saber que foi ele quem procurou ajuda.

A clínica onde meu amigo luta contra o crack faz parte de uma grande rede no interior de São Paulo coordenada por freis católicos. Eu também torço o nariz quando vejo clínicas de recuperação misturadas com religião, mas infelizmente, essa é a realidade de um pais despreparado e atrasado. Meu amigo teve a sorte de não ter caído na mão de evangélicos xiitas, porque aí é aquela coisa, você larga do crack e se amarra a um atraso mental e cultural de dar pena: a “verdade”; mesmo sabendo que ela ignora todo o respeito aos direitos humanos e ao bom senso.

Meu amigo foi passar o Ano Novo em casa antes de inicar o quarto e último ciclo do tratamento. Relembramos a adolescência, nossa iniciação no teatro, todas as coisas boas que vivemos. Ele me contou como começou a se envolver com o crack, há dois anos, os momentos mais críticos, quando fumou dentro de um cemitério, quando caiu dentro de um bueiro e acordou todo quebrado, quando pedia dinheiro para sua mãe, quando passou duas, três noites, transando e fumando pedra. Falou de uma amiga gravida e viciada que foi presa. Jovens mortos em acidentes, por overdose; noites preambulando sem saber sequer onde estava; pessoas sinistras que apareceram no seu caminho; o quanto ele se desconhecia quando se olhava no espelho.

Está consciente e querendo se recuperar. Me explicou como as coisas funcionam na clínica e botei fé no trabalho dos freis. Para chegar lá, passou por meses de triagem e aguardou uma vaga. A pessoa só fica se quiser, não paga nada e há um rígido controle sobre absolutamente todas as atividades do interno. Remédios, oração, atividades físicas e culturais, lá eles reaprendem a viver sem o crack. Qualquer vacilo, mínimo, é motivo de expulsão. Não há concessões.

O crack, além de ser a maior questão de saúde pública no Brasil contemporâneo, traz em si milhares de outras questões. É preciso ter o coração, os olhos e a mente limpa para resolver o problema. Se atualmente é impossível dissociar o trabalho de recuperação de doutrinamento religioso, é dever do poder público e do Estado laico brasileiro, criar alternativas igualmente sérias e eficientes.
Em breve escreverei para meu amigo, mesmo sabendo que a carta será aberta antes pela sua psicóloga. Não tem problema. Minhas palavras jamais teriam a intenção de atrapalhar seu tratamento. Vou dizer o quanto me orgulho dele, de quanto o amo e de que tenho certeza que todas as coisas trazidas pela vida guardam sentidos mágicos e misterioso. Orgulho-me de ele ter vivido tudo com tanta intensidade e fico feliz que ele tenha procurado ajuda.

Fico imaginando toda a multidão da Cracolândia que vaga agora pelas ruas da capital, sem nenhuma esperança, sem nenhum objetivo, sem nenhuma mãe guerreira que não julga e confia no filho, sem nenhum tratamento disponível. Aquela multidão de miseráveis invisíveis que estão sendo vítimas de mais uma higienização na paulicéia.

Dos 10 que terminam os quatro ciclos na clínica, apenas dois, de fato, largam definitivamente o crack. Eu acredito que meu amigo estará entre esses dois. E eu o ajudarei a contar essa experiência para outros. E a vida seguirá seu curso e continuará sendo bonita e perigosa.

Estejamos com os olhos abertos e livres de qualquer preconceito.

Restrospectiva 2011

BeerOlbrich Botanical GardensDevil´s ParkCharlesFalltree
bubblesladyprotestPlacemarriedhe loves it
Red Rocks ParkmasturbateBartenderCastro with fog.korean restaurant
HollywoodGolden GateCannon Beach.Red Rocks ParkHigh way

Restrospectiva 2011, um álbum no Flickr.

Escolhi rapidamente os melhores cliques de 2011. Gostaram?

Ele canta, dança, divulga as tradições culturais brasileiras em Boston. Há 8 anos vivendo nos Estados Unidos, o ator nascido em Vitória da Conquista fala de sua experiência em terras norte americanas, suas impressões sobre o Brasil. Robson coleciona histórias incríveis, muitas impossíveis de serem relatadas, mas que acabarão um dia indo para as telas. Atualmente, ensaia “Navalha na Carne” de Plínio Marcos, que tem estréia prevista para março. Robson interpretará o papel de Veludo, um veado “tinhoso”, nesse que será seu primeiro espetáculo em inglês.

Marcelo de Trói: Quando você pensa na Bahia aqui no Hemisfério Norte…
Robson Lemos: Me lembro de um dia em que eu estava confuso, triste pela Avenida Sete, e fui parar no Porto da Barra. Lá eu chorei vendo o por do sol. Lembro dessa cartase da Bahia que faz você estar presente na terra.
MT: Como foi chegar aqui? E como a Bahia está presente aqui?
RL: Quando eu cheguei em Salvador eu fui saber o que era sertanejo e quando cheguei nos Estados Unidos descobri que eu era brasileiro e baiano. De estar bem com tudo, com a neve e estar curtindo agora, por exemplo, esse frio de dois graus nesse feriado americano: o Thanksgiving que é o Dia do Peru. E o que é este feriado? Num periodo de muito fome, muita miséria, de muito frio, os americanos não tinham o que comer, e o que começou chegar em bandos ao redor, perus, cantando alegremente. Eles são o símbolo do Thanksgiving, do agradecer, foi o peru que ajudou a matar a miséria nesse período de grande fome.
MT: E por isso tão importante toda essa cerimônia, até na Casa Branca, quando presidente dá o perdão para o peru (risos). Assisti ao vivo pela internet.
RL: Interessantíssimo. E isso significa que o americano não quer mais sofrer esta miséria, quer continuar em ambundância.
MT: E como você acha que toda essa cultura louca interfere na sua arte?
RL: O mundo está extremamente globalizado e eu consigo ver a globalização do Brasil. Existe tanta diferença, mas tudo está tão proximo. A diferença ainda é a política, a economica e principalmente, a questão da Justiça. Se eu pudesse falar asssim, o que mais me irrita, o que mais me deixa inseguro na volta para o Brasil é a questão da Justiça. Todo mundo come lá, vive feliz com o pouco que tem.
MT: E aqui também.
RL: Aqui também. E ninguém aqui é rico, mas a questão da Justiça pesa muito. A impunidade. O Brasil tem uma coisa terrível em relação a isso e que precisa ser mudada. Uma coisa que sempre trabalho na minha arte é a necessidade humana. Algumas necessidades são básicas para todos os seres humanos, independente da língua. Uma delas: o amor. Envolve todo mundo. As necessidades físicas, a força da fome, a força do desejo, tudo pode ser colocado na arte. A força da sede. São universais e atingem a todos.
MT: Você é de Vitória da Conquista e traz um pouco dessa coisa da fala, uma coisa forte, você tem um pouco da verborragia baiana, ao mesmo tempo tem uma coisa forte, de sabedoria. Tem uma força do Sertão em você.
RL: Não existe espaço definido onde vai acontecer o movimento. Existe força e o movimento dentro de cada pessoa. Você tocou nessa coisa do sertão. Pois eu vou te contar uma: na minha infância, minha família foi convidada pra ir para um casamento em Vista Nova. Uma vila muito pobre. A moça andou várias léguas para casar e ela andou de vestido de noiva. Teve que andar descalça por que não aguentou, aquela terra vermellhar, coisa linda, aquela terra dura do sertão e todo mundo atrás dela. Coisa linda. Fomos até o lugar, rolou o casamento e o pai da mulher matou bois, galinhas, aquela farofa, aquela festa linda. O que achei mais lindo no meio disso tudo, é que apareceu um senhor, todo de branco, muito distinto, e esse senhor me fez um discurso que não entendi muito bem porque eu era criança, mas era tão bonito. Depois eu procurei saber quem era e meu pai disse: aquele senhor é uma pessoa de pouca escolaridade.
MT: E quantas experiência você não deve ter tido, porque o sertão tem essas figuras maravilhosas, mestres, beatos, gente com um outro tipo de conhecimento. Você cresceu sonhando em ir pra capital?
RL: A minha necessidade não era ir pra capital porque eu acho que não sou uma pessoa urbana. A minha questão era ir para um lugar diferente, conhecer culturas diferentes. Quando eu sai do sertão e fui pra Salvador foi diferente. O sertão me trouxe poesia. Salvador me trouxe uma coisa física, é uma cidade viril, uma cidade sexual. Naquele momento eu me fragilizei porque eu estava dentro do meu próprio corpo e interagindo com tudo, enquanto homem e enquanto artista. Eu posso dizer que na minha vida o que eu tinha pra sofrer eu sofri em Salvador. Eu me criei em Salvador, com resistência. Salvador tem uma coisa violenta presente na coisa física e na pobreza. Eu acho que foi válida a experiência. Em Boston, foi a comunicação. De você conseguir ler todas essas experiências e conseguir se comunicar. Porque o artista é um comunicador. Isso envolve tudo, conteúdos, comentários.
MT: Se você tivesse que dar nomes a quem te influenciou.
RL: Eu gosto muito do Caetano Veloso, da arte, da música. Eu tenho aquela coisa baiana de gostar de Caetano, Bethânia, normal. Mas tem uma coisa de amar Elomar Figueira. Esta semana eu escrevi um roteiro ouvindo a música de Elomar Figueira. Que traz coisas gigantescas do sertão, muito forte. Mas aqui nos Estados Unidos eu amo música de preto porque eu amo a percussão, então tudo que é rap, reggae, tem um cara inclusive que é da Jamaica, influenciado por Bob Marley, Sean Paul, ele é fantástico, tem músicas maravilhosas, mistura reggae jamaicano com hip hop. Levanta. E ligado a questoes politicas. Tenho amado a Beyonce que é negra, jovem, tem um trabalho lindo.
MT: Você me falou de um conhecido que parecer ter conseguido o primeiro asilo político por provar que os direitos LGBT não são respeitados no Brasil…
RL: A gente começa analisar as coisas de forma individual, e com isso a gente acha que o problema é nosso ou do outro. O que eu quero dizer com isso: quando você a questão da homossexualidade no Brasil e nos Estados Unidos existe grande diferença. Aqui, você vê uma questão de ordem política e de direitos, e é uma questão maior. Vendo assim, também podemos comparar uma coisa e outra. Um conhecido que mora aqui há 20 anos, foi pego pela imigração, sem documentos, e ele disse a juíza: eu estou aqui há 20 anos e me sinto bem em estar aqui pela questão do respeito ao homossexual. Ele sabia que se vivesse no Brasil poderia estar morto. A juíza ficou comovida com isso e pediu a ele que provasse. Durante três anos, ele juntou vários eventos de assassinatos de abusos contra homossexuais e consegui um asilo, digamos. Foi uma proteção a vida dele.


Robson Lemos em seu quarto em Somerville.

MT: Foram muitas lutas. A revolução contra a escravidão começou aqui em Boston, tem um outro olhar, uma herança…Um sentimento de Justiça, tipo, o cara do spray de pimenta que atacou os estudantes na Califórnia, foi afastado…
RL: Eles tentam controlar o abuso do poder, vetar o abuso do poder, coisa que no Brasil, infelizmente, não é controlado. No Brasil, se o cara é policial e ele te aborda na rua, ele te dá um tapa na tua cara, um murro no teu peito e acabou. E daí? Você vai reclamar que ele fez isso com você? Quer dizer, eu acho que aqui existe uma preocupação de nivelar as pessoas. Quer dizer, a polícia tem o seu papel dentro da sociedade, mas ele tem o limite. Isso é sociedade. Não é porque você tem um revólver na mão ou porque é um político, você pode abusar do poder. Isso é terrível.
MT: Ainda tem um pouco daquele ideal da “América”não é? Uma terra dita “livre”, com oportunidades iguais. Isso foi forjado aqui em Boston e engraçado hoje ser Thanksgiving, e eu vi ainda pouco algumas gravuras dos colonizadores sentados com os índios. Quer dizer, esses valores ainda são perseguidos pela sociedade americana, mesmo com toda a corrupção. 
RL: Eu nunca tive oportunidade de conhecer os nativos americanos. Os índios. Então eu fui convidado pra ir até Nebrasca para um congresso de arte e educação com Augusto Boal. Passei uma semana lá. Uma cidade que tinha milho, e eu comi milho até não querer mais. Tudo muito barato, as pessoas muito hospitaleiras, eu chegava nos lugares e ninguém deixava eu pagar nada. Eu senti uma coisa de interior, do sertão da Bahia. Resultado: rolou o congresso, umas 500 pessoas do mundo inteiro fazendo homenagem ao Boal, e eu conheci um índio. Aquele cabelo preto, aquela cara, eu achei que era mexicano, fui falar espanhol com ele. Ele disse que não falava espanhol e que era índio norte-americano. Native india. Ele usava pena, tava lutando por questões ecológicas dentro da teoria do Boal. Foi um encontro fantástico. Em determinado momento, a gente estava num auditório enorme, lotado e Boal disse em inglês: “A Constituição desse país, precisa ser revista, porque ela é uma brincadeira, como você pode fazer a constituição de um país inspirado na Bíblia. Religião e política não tem nada a ver”. Ele falou isso e foi muito forte. Ele falou com um desdem, sarcastico. É muito poder, muito conhecimento para você chegar em um país, dentro de um auditório de uma prefeitura e fazer uma afirmação como essa. Eu achei muito forte. Pra eu quebrar minha opressão, a primeira coisa que fiz foi tirar minha sandália, avisar todo mundo, e depois disse que meu inglês não era tão bom mas que eu iria falar do jeito que eu poderia falar, sem opressão. Comecei assim.
MT: Há quem critique a terminologia Teatro do Oprimido.
RL: Eu acho que o Teatro do Oprimido é só uma terminologia para dizer que todo mundo é oprimido. Acho que temos que descobrir a opressão e liberar. Eu queria contar um fato interessante que aconteceu comigo aqui na estação de Beverly, Massachussets, onde estamos chegando agora. Tinha uma moça bonita na estação e ela falou em português: Robson, tudo bem? Você não se lembra de mim. Eu olhei pra ela assim, surpreso, e disse, “mais ou menos”. Ela disse assim: eu sou esposa de fulano de tal. Era mulher de uma das pessoas que trabalhava comigo no restaurante. Em questão de minutos, ela começou a falar da vida dela para mim e ela disse que nos sete anos que ela ficou no Brasil sozinha, ela arranjou um outro homem lá, porque mulher, não consegue viver sozinha, depois que tem marido. Ela me falou que assim que chegou aqui ela percebeu que tinha todos os direitos que ele tinha e que o mais importante naquele momento é que ela tinha o direito, e era oportunidade, de trabalhar e fazer o dinheiro dela. Ela disse que estava pensando em se separar. De início eu posso te dizer, se eu fosse usar minha questão moral de homem que nasceu e cresceu no Brasil eu poderia dizer: é uma mulher, digamos, sem moral, sem escrupulo? Mas tendo uma visão internacional, eu posso dizer assim: ela é uma mulher que está a procura da independência dela. Mulher aqui tem muita oportunidade aqui, mais que no Brasil. Então existe muito conflito entre brasileiros que vêm para cá. A conquista econômica é muito forte e o brasileiro, infelizmente, tem uma coisa muito machista dentro dele. A mulher aqui é muito protegida pela lei. Tem tanto abuso no Brasil.

Assista este curta com Robson Lemos:
Venha ver o por do sol

Marcha por trabalho

Charge2010-votelimpo

Charge de Ivan Cabral.

“Os políticos são mais conservadores que a sociedade”, tem dito com frequência o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em suas últimas entrevistas. Isso quer dizer que o primeiro objetivo dos políticos é o voto pois eles querem se manter onde estão: no poder. No caso dos parlamentares, falam sempre aquilo que a maioria dos eleitores querem ouvir e votam no Congresso Nacional por questões que são consenso na sociedade. Se a questão não for um consenso ou se não houver pressão popular, o deputado ou senador, se sente livre para votar em favor dos seus interesses particulares e sua ideologia, seja ela qual for.

Para saber o que a sociedade quer ouvir, existem as pesquisas qualitativas e quantitativas. Elas são a base da publicidade, e os publicitários as usam como guia para produzirem discursos e aparências vendáveis a população em anos eleitorais.

No executivo se passa o mesmo. Por exemplo: a candidata Dilma, ao abrir sua campanha na televisão em 2010, se não me falha a memória, segundo programa, prometeu uma luta dura contra o crack que vem destruindo famílias de norte a sul do país. Se há um consenso entre as pessoas que se interessam por questões relativa às drogas, é de que o crack deve ser duramente reprimido. No entanto, estamos chegando ao final do seu primeiro ano de mandato como presidenta da República, desconheço alguma campanha nacional de prevenção e informação dos efeitos do uso do crack. O que vemos até o momento são ainda campanhas genéricas sobre o uso de drogas, o que é em sim um libelo a desinformação, pois colocam todas as drogas ilícitas, da maconha ao crack, no mesmo nível de periculosidade.

Outro exemplo de descompasso democrático: o fenômeno da aprovação do novo Código Florestal, que marca o fim de qualquer política ambiental do país e que poderia ser chamado Código da Agricultura. Veja bem, há pesquisas que indicam que 80% da população é contra as alterações ambientais que o Congresso brasileiro pretende aprovar com ampla maioria. Ou seja, há um enorme consenso, sobre como deve ser tratada a questão, mas esta enorme vontade da sociedade vem sendo escandalosamente ignorada pelos senhores deputados e senadores. Inversamente ao que a sociedade pensa, 80% dos deputados votaram a favor das alterações do código florestal na Câmara dos Deputados e, provavelmente, o mesmo percentual se repetirá no senado brasileiro. Como pode os políticos ignorarem tamanho consenso da sociedade?

Há um outro fator fundamental para a eleição de qualquer político brasileiro: o dinheiro. O custo das campanhas eleitorais no Brasil vem subindo ano após ano, com índices muito acima da inflação. Apesar do custo da eleição variar de candidato para candidato, há uma média. Um político muito conhecido com uma estrutura partidária na sua mão não gastará menos do que 2 milhões de reais para se eleger e uma pessoa desconhecida que nunca se candidatou e quer se eleger a qualquer custo não gastará menos de 10 milhões de reais. Esse é o cálculo, mesmo que as contas aprovadas no TRE não informem esses valores. Isso, evidentemente para cargos legislativos, para os cargos do poder executivo, prefeito, governadores e presidente, os valores sobem astronomicamente de acordo com o poder econômico e político do cargo. Mas é claro que há exceções, um fenômeno como um Tiririca, que virou uma espécie de celebridade, tem mídia gratuita e carregou uma multidão de eleitores como forma de protesto.

O dinheiro é o ponto. O custo para chegar ao poder é quase uma impossibilidade ao cidadão comum. O agronegócio tem crescido, em virtude da entrada no mercado de consumidores de alimentos das populações de países como a Índia e a China, e bancado muitas eleições, cada dia mais, ou comprando o voto dos que não receberam doações nas campanhas eleitorais.

O político precisa do dinheiro para bancar a próxima eleição, mas não pode ir contra um consenso tão amplo da sociedade e da opinião pública.

Hoje eles apostam no esquecimento rápido da população brasileira, no velho ditado: “brasileiro não tem memória”. Não é atoa que estão correndo para fazer todas as votações este ano que não há nenhuma eleição. Ano que vem, quando eles vierem pedir o voto nas campanhas, ninguém se lembrará quem vendeu nossas matas, florestas e condenou nossas águas a escassez. Apostam na nossa ignorância.

A pressão popular este ano não fará grande diferença. Os políticos brasileiros acreditam no esquecimento, tanto quanto achamos que a ditadura militar é um passado longinquo que não afeta mais a nós cidadãos de hoje. Eles sabem que nem lembraremos do nosso extinto código florestal, em 2012, quando alguns sairão candidatos a prefeitos, nem daqui a três anos, quando o restante tentará a reeleição.

Devemos mesmo torcer para que os parlamentares que ainda lutam em prol do meio ambiente consigam adiar a votação final ad-infinitum, como muitos projetos de lei que demoram décadas pra serem votados, quando não são esquecidos nas gavetas do Congresso. A nós, cidadãos comuns, impotentes diante do fracasso dos sistema representativo, devemos guardar e divulgar o nome de cada um que votou contra o desejo de vida que a sociedade já manifestou. Devemos evitar o esquecimento.

A nossa lenta vingança, nosso deleite, é que a cada eleição, uma renovação natural dos parlamentares acontece. Isso quer dizer que uma parte dos vendedores de nossas florestas e águas perderá o poder daqui a três anos. E nós estaremos aqui, neste mesmo local, brindando aos que não se manterão no poder. Eu darei risada da cara deles, votarei contra eles e brindarei por suas derrotas.

Igor Penna trabalha com audiovisual. É diretor de “A Morte de DJ em Paris” (2011) e “Orgia“(2009).

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gold, upload feito originalmente por marcelodetroi.

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