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Archive for the ‘Jornalismo’ Category

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Pobre São Paulo, pobre paulista. Quem vive na periferia já sabe o que é viver em Estado de exceção quase que cotidianamente. O terrorismo de Estado é permanente não só pelos serviços essenciais que faltam, e no caso de SP isso inclui saúde, educação, segurança e até um item básico para a sobrevivência humana: a água, mas também pela maneira como quem deveria garantir a segurança, utiliza a força para oprimir.

Nós, os do centro, temos uma pequena ideia do que é viver assim. A partir de junho de 2013 (foto que abre o post e que foi capa da Folha de S.Paulo), a classe média branca pode sentir na pele a força da polícia tucana durante as manifestações. Violações de nossas liberdades individuais foram filmadas, fotografadas, não sem surpresa, com o aplauso e apoio de muitos.

Mas, passado a ebulição da “primavera brasileira”, quando o gigante acordou com uma bafo tremendo e reacionário, enveredando para manifestações de caráter conservador e fascista, o Estado de exceção vem se confirmando no dia-a-dia. Para nosso espanto, muitas vezes sob o silêncio amedrontado de quem é vítima. Perdemos e feio nossa capacidade de reação. Temos muito o que aprender com as periferias e os movimentos de resistência que estão se desenrolando por lá.

Sempre recebo visitas de amigos do Nordeste e quase sempre faço malabarismo para evitar que eles passem por algum tipo de constrangimento. O fascismo, a aridez e a violência dessa metrópole é um contraponto à gentileza e modo de vida de lugares como Natal, Salvador, João Pessoa e, com essa afirmação pretendo, não fechar os olhos para a violência extrema que também pairam sobre esses lugares.

Dois fatos narrados e presenciados por meus amigos me deixaram chocados. Só tive tempo de falar sobre isso agora, mas é fato que a PM vem se transformado no principal agente do terrorismo de Estado.

Fato 1: Praça Roosevelt > na noite do dia 19/09, por volta das 18h (veja bem, não era madrugada), um grupo de policiais obriga um artista a parar com seu show em praça pública. De forma completamente violenta e desnecessária.

Fato 2: Por volta de 1h da manhã, no mesmo dia, no Barnaldo e Lucrécia, na região da Paulista, policiais INVADEM o bar e exigem o fim de um show.

Ouça depoimento:

Em nenhum dos casos acima houve explicação por parte dos agentes. São apenas dois casos ilustrativos, mas não duvidem, eles acontecem diariamente nessa cidade que se orgulha do “trabalho”, de sua “modernidade”. Horror. Pesadelo. O índice de mortos pela policia é o maior em 12 anos e agora vem a Lei Anti-Terrorismo que só vai aumentar o Estado de exceção que já é realidade no país.

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Leiam matéria que escrevi para a Revista Dome Life sobre o acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP, clique aqui.

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O escritor João Ubaldo Ribeiro e o cineasta Hermano Penna: 30 anos de “Sargento Getúlio”

Em três ocasiões ele sequer sabia onde estava. A confusão é fruto das inúmeras viagens que realizou em 2012 por conta do centenário de seu amigo e padrinho: Jorge Amado. “Mal tenho ficado em minha casa. Esses dias, precisou minha mulher gritar comigo: estamos na Espanha!”, conta João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores escritores brasileiros vivos, e para o cineasta Glauber Rocha, autor de um dos cinco grandes livros da literatura nacional.

Ubaldo venceu o cansaço e arranjou tempo para acatar o pedido do amigo Hermano Penna: participar da Balada Literária 2012 em um bate papo comemorativo dos 30 anos do filme Sargento Getúlio, adaptação do clássico para o cinema, dirigido por Hermano, ainda na casa dos 20, em fins dos anos 70. “Eu digo que não fiz um filme, mas a propaganda de um livro. Compramos dois livros e recortávamos as frases para colar diretamente no roteiro. Não houve interferência”, conta o cineasta.

O encontro aconteceu no Centro Cultural Barco, em Pinheiros, São Paulo. Platéia atenta durante uma hora de conversa descontraída e bem humorada, intercalada pela leitura deliciosa do livro com o escritor Marcelino Freire.

“Tenho mania de Shakespeare”, revelou Ubaldo em sua primeira fala. O tom shakespeariano também foi assumido por Lima Duarte no filme, na tentativa da direção em evitar qualquer relação com Zeca Diabo, papel marcante em última novela do ator. O filme, rodado em 1977 através de um programa da Embrafilme para pilotos de TV, transformou-se em longa pela ousadia. “Estávamos matando cachorro a grito”, contou Hermano. Só teve reconhecimento em 1983 quando recebeu prêmios no Festival de Gramado, Locarno (Suiça), Havana (Cuba), APCA, além da indicação no Festival de Moscow e exibição em diversos países. O filme coleciona mais de 80 prêmios e indicações. Grande acerto para o primeiro longa de um diretor.

“Sargento Getúlio não é caboclo, não é sertanejo. Ele fala como um personagem clássico. A referência a Shakespeare também está no início com as bruxas, nitidamente inspiradas em Macbeth”, conta Hermano. “Eu também estava muito inspirado por Sartre e quando me apresentaram o livro, na época de um autor estreante, eu automaticamente me apaixonei pelo personagem”, revela o diretor.

O escritor contou que escreveu o livro nas madrugadas, quando tinha tempo, depois de ralar em três trabalhos diferentes. Era o início de tudo. A falta de ponto final em Sargento foi graças ao whisky. “Já fizeram até tese sobre a falta de ponto final no encerramento do livro, mas vou confessar uma coisa que talvez ninguém saiba: aquilo foi graças ao whisky”, conta Ubaldo arrancando risos da platéia. “Eu estava bêbado e disse, amanhã eu olho, e no dia seguinte acabei deixando como estava”.

Não faltaram relatos e citações da infância, da intensa amizade com Glauber, Dorival Caymmi, sobre janeiro na Ilha de Itaparica, sua vida nos Estados Unidos, nem sobre suas inspirações. “Estou reavaliando a vida. O Rio é pertinho, deu pra estar com vocês”. Erudito como poucos autores, Ubaldo em sua simplicidade, não deixou de discorrer sobre o ἀρετή (aretê) grego para explicar a empatia que todos têm pelo personagem, mesmo reconhecendo nele um facínora  “Getúlio exerce um fascínio pela lealdade que tem à sua própria identidade. Ele tem o seu aretê, a sua virtude. Mas não é a virtude cristã, é a virtude para o herói grego, a fidelidade a seus princípios”.

Sargento Getúlio não deixa de ser Hamlet, afirma o autor de “Viva o Povo Brasileiro”. “Eu nunca vou morrer, Amaro. Eu nunca vou morrer”, brada o personagem em cena antológica de Getúlio. Eternidade para os autores e suas obras.

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foto: Serjão Carvalho

Há 20 anos é a mesma rua de terra, nenhum olhar da prefeitura ou do estado. A mesma rua de terra com as mesmas crianças correndo. As casas ganharam pintura nova. Trabalho parece ter, salário mínimo, verdade. E continuo me perguntando diariamente para quem está chegando os benefícios da sexta economia mundial.

José Bonifácio (JB), noroeste de São Paulo, ainda é uma cidade pacata para os padrões das metrópoles brasileiras. Lugar que meu pai escolheu para viver desde o fim dos anos 80, fugindo da vida na capital. Aqui  não há teatro, não há cinema, há cerveja, funk e música sertaneja.

Os cerca de 40 mil habitantes de JB insistem em usar carros embora você possa ir de uma ponta a outra da cidade em menos de 20 minutos de bicicleta. Os rachas de automóvel ou motocicleta, o alto consumo de bebidas alcóolicas por adolescentes, deixam a certeza de que essas entranhas do estado de São Paulo guardam algum parentesco com a juventude transvidada de James Dean. Mas ainda é possível caminhar em ruas limpíssimas, tranquilas, conhecer o vizinho, fazer compras na feira, não se vê grande sinal de miséria. Nível social e qualidade de vida invejáveis, mas que andaram caindo um pouco com a chegada das usinas de etanol e o crescimento da cidade.

Andando um pouco e conversando com os amigos de adolescência é muito fácil descobrir o lado oculto do chamado progresso social. Jovens bem nascidos da classe média, agroboys, trabalhadores rurais, adolescentes surgidos em uma nova periferia não muito distante do centro, grande parte deles, sem distinção, estão envolvidos com o crack. Não me surpreendo, a história se repete em  locais como a Ilha de Itaparica ou nas cidades mais pequenas do sul do país.

Assassinatos e crimes provocados pelo maior problema de saúde pública do Brasil ainda não é frequente por estas bandas. Mas é questão de tempo. Garotos e garotas já se prostituem a troco de uma pedra de crack ou de dinheiro para comprá-la.
Chego para visitar um amigo na tal rua de terra que está na mesma há 20 anos. É a mãe dele que me dá a notícia de seu internamento. Fico chocado. Mas como ele caiu nessa? Tão inteligente, esperto, viajado, vivido. Não há explicações e tão pouco julgamento da minha parte. Fico feliz em saber que foi ele quem procurou ajuda.

A clínica onde meu amigo luta contra o crack faz parte de uma grande rede no interior de São Paulo coordenada por freis católicos. Eu também torço o nariz quando vejo clínicas de recuperação misturadas com religião, mas infelizmente, essa é a realidade de um pais despreparado e atrasado. Meu amigo teve a sorte de não ter caído na mão de evangélicos xiitas, porque aí é aquela coisa, você larga do crack e se amarra a um atraso mental e cultural de dar pena: a “verdade”; mesmo sabendo que ela ignora todo o respeito aos direitos humanos e ao bom senso.

Meu amigo foi passar o Ano Novo em casa antes de inicar o quarto e último ciclo do tratamento. Relembramos a adolescência, nossa iniciação no teatro, todas as coisas boas que vivemos. Ele me contou como começou a se envolver com o crack, há dois anos, os momentos mais críticos, quando fumou dentro de um cemitério, quando caiu dentro de um bueiro e acordou todo quebrado, quando pedia dinheiro para sua mãe, quando passou duas, três noites, transando e fumando pedra. Falou de uma amiga gravida e viciada que foi presa. Jovens mortos em acidentes, por overdose; noites preambulando sem saber sequer onde estava; pessoas sinistras que apareceram no seu caminho; o quanto ele se desconhecia quando se olhava no espelho.

Está consciente e querendo se recuperar. Me explicou como as coisas funcionam na clínica e botei fé no trabalho dos freis. Para chegar lá, passou por meses de triagem e aguardou uma vaga. A pessoa só fica se quiser, não paga nada e há um rígido controle sobre absolutamente todas as atividades do interno. Remédios, oração, atividades físicas e culturais, lá eles reaprendem a viver sem o crack. Qualquer vacilo, mínimo, é motivo de expulsão. Não há concessões.

O crack, além de ser a maior questão de saúde pública no Brasil contemporâneo, traz em si milhares de outras questões. É preciso ter o coração, os olhos e a mente limpa para resolver o problema. Se atualmente é impossível dissociar o trabalho de recuperação de doutrinamento religioso, é dever do poder público e do Estado laico brasileiro, criar alternativas igualmente sérias e eficientes.
Em breve escreverei para meu amigo, mesmo sabendo que a carta será aberta antes pela sua psicóloga. Não tem problema. Minhas palavras jamais teriam a intenção de atrapalhar seu tratamento. Vou dizer o quanto me orgulho dele, de quanto o amo e de que tenho certeza que todas as coisas trazidas pela vida guardam sentidos mágicos e misterioso. Orgulho-me de ele ter vivido tudo com tanta intensidade e fico feliz que ele tenha procurado ajuda.

Fico imaginando toda a multidão da Cracolândia que vaga agora pelas ruas da capital, sem nenhuma esperança, sem nenhum objetivo, sem nenhuma mãe guerreira que não julga e confia no filho, sem nenhum tratamento disponível. Aquela multidão de miseráveis invisíveis que estão sendo vítimas de mais uma higienização na paulicéia.

Dos 10 que terminam os quatro ciclos na clínica, apenas dois, de fato, largam definitivamente o crack. Eu acredito que meu amigo estará entre esses dois. E eu o ajudarei a contar essa experiência para outros. E a vida seguirá seu curso e continuará sendo bonita e perigosa.

Estejamos com os olhos abertos e livres de qualquer preconceito.

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Ele canta, dança, divulga as tradições culturais brasileiras em Boston. Há 8 anos vivendo nos Estados Unidos, o ator nascido em Vitória da Conquista fala de sua experiência em terras norte americanas, suas impressões sobre o Brasil. Robson coleciona histórias incríveis, muitas impossíveis de serem relatadas, mas que acabarão um dia indo para as telas. Atualmente, ensaia “Navalha na Carne” de Plínio Marcos, que tem estréia prevista para março. Robson interpretará o papel de Veludo, um veado “tinhoso”, nesse que será seu primeiro espetáculo em inglês.

Marcelo de Trói: Quando você pensa na Bahia aqui no Hemisfério Norte…
Robson Lemos: Me lembro de um dia em que eu estava confuso, triste pela Avenida Sete, e fui parar no Porto da Barra. Lá eu chorei vendo o por do sol. Lembro dessa cartase da Bahia que faz você estar presente na terra.
MT: Como foi chegar aqui? E como a Bahia está presente aqui?
RL: Quando eu cheguei em Salvador eu fui saber o que era sertanejo e quando cheguei nos Estados Unidos descobri que eu era brasileiro e baiano. De estar bem com tudo, com a neve e estar curtindo agora, por exemplo, esse frio de dois graus nesse feriado americano: o Thanksgiving que é o Dia do Peru. E o que é este feriado? Num periodo de muito fome, muita miséria, de muito frio, os americanos não tinham o que comer, e o que começou chegar em bandos ao redor, perus, cantando alegremente. Eles são o símbolo do Thanksgiving, do agradecer, foi o peru que ajudou a matar a miséria nesse período de grande fome.
MT: E por isso tão importante toda essa cerimônia, até na Casa Branca, quando presidente dá o perdão para o peru (risos). Assisti ao vivo pela internet.
RL: Interessantíssimo. E isso significa que o americano não quer mais sofrer esta miséria, quer continuar em ambundância.
MT: E como você acha que toda essa cultura louca interfere na sua arte?
RL: O mundo está extremamente globalizado e eu consigo ver a globalização do Brasil. Existe tanta diferença, mas tudo está tão proximo. A diferença ainda é a política, a economica e principalmente, a questão da Justiça. Se eu pudesse falar asssim, o que mais me irrita, o que mais me deixa inseguro na volta para o Brasil é a questão da Justiça. Todo mundo come lá, vive feliz com o pouco que tem.
MT: E aqui também.
RL: Aqui também. E ninguém aqui é rico, mas a questão da Justiça pesa muito. A impunidade. O Brasil tem uma coisa terrível em relação a isso e que precisa ser mudada. Uma coisa que sempre trabalho na minha arte é a necessidade humana. Algumas necessidades são básicas para todos os seres humanos, independente da língua. Uma delas: o amor. Envolve todo mundo. As necessidades físicas, a força da fome, a força do desejo, tudo pode ser colocado na arte. A força da sede. São universais e atingem a todos.
MT: Você é de Vitória da Conquista e traz um pouco dessa coisa da fala, uma coisa forte, você tem um pouco da verborragia baiana, ao mesmo tempo tem uma coisa forte, de sabedoria. Tem uma força do Sertão em você.
RL: Não existe espaço definido onde vai acontecer o movimento. Existe força e o movimento dentro de cada pessoa. Você tocou nessa coisa do sertão. Pois eu vou te contar uma: na minha infância, minha família foi convidada pra ir para um casamento em Vista Nova. Uma vila muito pobre. A moça andou várias léguas para casar e ela andou de vestido de noiva. Teve que andar descalça por que não aguentou, aquela terra vermellhar, coisa linda, aquela terra dura do sertão e todo mundo atrás dela. Coisa linda. Fomos até o lugar, rolou o casamento e o pai da mulher matou bois, galinhas, aquela farofa, aquela festa linda. O que achei mais lindo no meio disso tudo, é que apareceu um senhor, todo de branco, muito distinto, e esse senhor me fez um discurso que não entendi muito bem porque eu era criança, mas era tão bonito. Depois eu procurei saber quem era e meu pai disse: aquele senhor é uma pessoa de pouca escolaridade.
MT: E quantas experiência você não deve ter tido, porque o sertão tem essas figuras maravilhosas, mestres, beatos, gente com um outro tipo de conhecimento. Você cresceu sonhando em ir pra capital?
RL: A minha necessidade não era ir pra capital porque eu acho que não sou uma pessoa urbana. A minha questão era ir para um lugar diferente, conhecer culturas diferentes. Quando eu sai do sertão e fui pra Salvador foi diferente. O sertão me trouxe poesia. Salvador me trouxe uma coisa física, é uma cidade viril, uma cidade sexual. Naquele momento eu me fragilizei porque eu estava dentro do meu próprio corpo e interagindo com tudo, enquanto homem e enquanto artista. Eu posso dizer que na minha vida o que eu tinha pra sofrer eu sofri em Salvador. Eu me criei em Salvador, com resistência. Salvador tem uma coisa violenta presente na coisa física e na pobreza. Eu acho que foi válida a experiência. Em Boston, foi a comunicação. De você conseguir ler todas essas experiências e conseguir se comunicar. Porque o artista é um comunicador. Isso envolve tudo, conteúdos, comentários.
MT: Se você tivesse que dar nomes a quem te influenciou.
RL: Eu gosto muito do Caetano Veloso, da arte, da música. Eu tenho aquela coisa baiana de gostar de Caetano, Bethânia, normal. Mas tem uma coisa de amar Elomar Figueira. Esta semana eu escrevi um roteiro ouvindo a música de Elomar Figueira. Que traz coisas gigantescas do sertão, muito forte. Mas aqui nos Estados Unidos eu amo música de preto porque eu amo a percussão, então tudo que é rap, reggae, tem um cara inclusive que é da Jamaica, influenciado por Bob Marley, Sean Paul, ele é fantástico, tem músicas maravilhosas, mistura reggae jamaicano com hip hop. Levanta. E ligado a questoes politicas. Tenho amado a Beyonce que é negra, jovem, tem um trabalho lindo.
MT: Você me falou de um conhecido que parecer ter conseguido o primeiro asilo político por provar que os direitos LGBT não são respeitados no Brasil…
RL: A gente começa analisar as coisas de forma individual, e com isso a gente acha que o problema é nosso ou do outro. O que eu quero dizer com isso: quando você a questão da homossexualidade no Brasil e nos Estados Unidos existe grande diferença. Aqui, você vê uma questão de ordem política e de direitos, e é uma questão maior. Vendo assim, também podemos comparar uma coisa e outra. Um conhecido que mora aqui há 20 anos, foi pego pela imigração, sem documentos, e ele disse a juíza: eu estou aqui há 20 anos e me sinto bem em estar aqui pela questão do respeito ao homossexual. Ele sabia que se vivesse no Brasil poderia estar morto. A juíza ficou comovida com isso e pediu a ele que provasse. Durante três anos, ele juntou vários eventos de assassinatos de abusos contra homossexuais e consegui um asilo, digamos. Foi uma proteção a vida dele.


Robson Lemos em seu quarto em Somerville.

MT: Foram muitas lutas. A revolução contra a escravidão começou aqui em Boston, tem um outro olhar, uma herança…Um sentimento de Justiça, tipo, o cara do spray de pimenta que atacou os estudantes na Califórnia, foi afastado…
RL: Eles tentam controlar o abuso do poder, vetar o abuso do poder, coisa que no Brasil, infelizmente, não é controlado. No Brasil, se o cara é policial e ele te aborda na rua, ele te dá um tapa na tua cara, um murro no teu peito e acabou. E daí? Você vai reclamar que ele fez isso com você? Quer dizer, eu acho que aqui existe uma preocupação de nivelar as pessoas. Quer dizer, a polícia tem o seu papel dentro da sociedade, mas ele tem o limite. Isso é sociedade. Não é porque você tem um revólver na mão ou porque é um político, você pode abusar do poder. Isso é terrível.
MT: Ainda tem um pouco daquele ideal da “América”não é? Uma terra dita “livre”, com oportunidades iguais. Isso foi forjado aqui em Boston e engraçado hoje ser Thanksgiving, e eu vi ainda pouco algumas gravuras dos colonizadores sentados com os índios. Quer dizer, esses valores ainda são perseguidos pela sociedade americana, mesmo com toda a corrupção. 
RL: Eu nunca tive oportunidade de conhecer os nativos americanos. Os índios. Então eu fui convidado pra ir até Nebrasca para um congresso de arte e educação com Augusto Boal. Passei uma semana lá. Uma cidade que tinha milho, e eu comi milho até não querer mais. Tudo muito barato, as pessoas muito hospitaleiras, eu chegava nos lugares e ninguém deixava eu pagar nada. Eu senti uma coisa de interior, do sertão da Bahia. Resultado: rolou o congresso, umas 500 pessoas do mundo inteiro fazendo homenagem ao Boal, e eu conheci um índio. Aquele cabelo preto, aquela cara, eu achei que era mexicano, fui falar espanhol com ele. Ele disse que não falava espanhol e que era índio norte-americano. Native india. Ele usava pena, tava lutando por questões ecológicas dentro da teoria do Boal. Foi um encontro fantástico. Em determinado momento, a gente estava num auditório enorme, lotado e Boal disse em inglês: “A Constituição desse país, precisa ser revista, porque ela é uma brincadeira, como você pode fazer a constituição de um país inspirado na Bíblia. Religião e política não tem nada a ver”. Ele falou isso e foi muito forte. Ele falou com um desdem, sarcastico. É muito poder, muito conhecimento para você chegar em um país, dentro de um auditório de uma prefeitura e fazer uma afirmação como essa. Eu achei muito forte. Pra eu quebrar minha opressão, a primeira coisa que fiz foi tirar minha sandália, avisar todo mundo, e depois disse que meu inglês não era tão bom mas que eu iria falar do jeito que eu poderia falar, sem opressão. Comecei assim.
MT: Há quem critique a terminologia Teatro do Oprimido.
RL: Eu acho que o Teatro do Oprimido é só uma terminologia para dizer que todo mundo é oprimido. Acho que temos que descobrir a opressão e liberar. Eu queria contar um fato interessante que aconteceu comigo aqui na estação de Beverly, Massachussets, onde estamos chegando agora. Tinha uma moça bonita na estação e ela falou em português: Robson, tudo bem? Você não se lembra de mim. Eu olhei pra ela assim, surpreso, e disse, “mais ou menos”. Ela disse assim: eu sou esposa de fulano de tal. Era mulher de uma das pessoas que trabalhava comigo no restaurante. Em questão de minutos, ela começou a falar da vida dela para mim e ela disse que nos sete anos que ela ficou no Brasil sozinha, ela arranjou um outro homem lá, porque mulher, não consegue viver sozinha, depois que tem marido. Ela me falou que assim que chegou aqui ela percebeu que tinha todos os direitos que ele tinha e que o mais importante naquele momento é que ela tinha o direito, e era oportunidade, de trabalhar e fazer o dinheiro dela. Ela disse que estava pensando em se separar. De início eu posso te dizer, se eu fosse usar minha questão moral de homem que nasceu e cresceu no Brasil eu poderia dizer: é uma mulher, digamos, sem moral, sem escrupulo? Mas tendo uma visão internacional, eu posso dizer assim: ela é uma mulher que está a procura da independência dela. Mulher aqui tem muita oportunidade aqui, mais que no Brasil. Então existe muito conflito entre brasileiros que vêm para cá. A conquista econômica é muito forte e o brasileiro, infelizmente, tem uma coisa muito machista dentro dele. A mulher aqui é muito protegida pela lei. Tem tanto abuso no Brasil.

Assista este curta com Robson Lemos:
Venha ver o por do sol

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