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Archive for the ‘Personalidades’ Category

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Walmor Chagas em Onde Canta o Sabiá  (1963), peça de Gastão Tojeiro, montagem do TCB da Cia de Teatro Cacilda Becker.

Era 1999. Participei das leituras de Cacilda!! pelo interior de São Paulo. Fomos conhecer a pousada de Walmor. O Zé Celso queria chamá-lo para fazer Zeus na “Bacantes – bug do milênio”, feito que o Teatro Oficina repetia pela segunda vez, desde os anos 70, quando fizeram uma peça de Tchecov no Reveillon.

Walmor mostrou o quartinho onde guardava coisas de Cacilda. Falou com paixão da vida e nos mostrou seu Teatro Grego no fundo do quintal com uma enorme rocha que dava uma acústica ímpar ao local.

Nunca esquecerei disso.

Walmor, ethernidade!

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Dona Canô em foto de Maria Sampaio.

Acordei aqui no noroeste paulista com a notícia da morte de Dona Canô. Perdi a conta de quantas vezes estive com ela na casa de Santo Amaro. Tive a oportunidade de entrevistá-la umas dez vezes para televisão e jornais que trabalhei nos meus 11 anos de Bahia. A última vez foi no lançamento de “Cê” (2007) quando fiz o perfil de Caetano Veloso para a Gazeta Mercantil.

Sempre admirei esta mulher, por sua força, inteligência e determinação. Defendeu os filhos a vida inteira, foi representante de seu povo, se transformou em ícone. Viver 105 anos deve ser uma experiência incrível.

Hoje, Santo Amaro, essa pequena cidade do Recôncavo que nos deu grandes pérolas culturais, estará de luto, como todo o Brasil. Mas não devemos chorar além do necessário. Vamos nos lembrar de tantas coisas boas que ela deixou. Forjou o talento dos filhos, lançou todos eles no mundo, sem nenhum tipo de provincianismo.

Foi numa entrevista que Dona Canô me disse que o momento mais crítico de sua vida foi o exílio do filho, em Londres. E jamais me esquecerei de seu conselho para viver bastante: “A pessoa não deve se aborrecer com nada, esse é o segredo de um longa vida”.

Ethernidade, Canô!

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O escritor João Ubaldo Ribeiro e o cineasta Hermano Penna: 30 anos de “Sargento Getúlio”

Em três ocasiões ele sequer sabia onde estava. A confusão é fruto das inúmeras viagens que realizou em 2012 por conta do centenário de seu amigo e padrinho: Jorge Amado. “Mal tenho ficado em minha casa. Esses dias, precisou minha mulher gritar comigo: estamos na Espanha!”, conta João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores escritores brasileiros vivos, e para o cineasta Glauber Rocha, autor de um dos cinco grandes livros da literatura nacional.

Ubaldo venceu o cansaço e arranjou tempo para acatar o pedido do amigo Hermano Penna: participar da Balada Literária 2012 em um bate papo comemorativo dos 30 anos do filme Sargento Getúlio, adaptação do clássico para o cinema, dirigido por Hermano, ainda na casa dos 20, em fins dos anos 70. “Eu digo que não fiz um filme, mas a propaganda de um livro. Compramos dois livros e recortávamos as frases para colar diretamente no roteiro. Não houve interferência”, conta o cineasta.

O encontro aconteceu no Centro Cultural Barco, em Pinheiros, São Paulo. Platéia atenta durante uma hora de conversa descontraída e bem humorada, intercalada pela leitura deliciosa do livro com o escritor Marcelino Freire.

“Tenho mania de Shakespeare”, revelou Ubaldo em sua primeira fala. O tom shakespeariano também foi assumido por Lima Duarte no filme, na tentativa da direção em evitar qualquer relação com Zeca Diabo, papel marcante em última novela do ator. O filme, rodado em 1977 através de um programa da Embrafilme para pilotos de TV, transformou-se em longa pela ousadia. “Estávamos matando cachorro a grito”, contou Hermano. Só teve reconhecimento em 1983 quando recebeu prêmios no Festival de Gramado, Locarno (Suiça), Havana (Cuba), APCA, além da indicação no Festival de Moscow e exibição em diversos países. O filme coleciona mais de 80 prêmios e indicações. Grande acerto para o primeiro longa de um diretor.

“Sargento Getúlio não é caboclo, não é sertanejo. Ele fala como um personagem clássico. A referência a Shakespeare também está no início com as bruxas, nitidamente inspiradas em Macbeth”, conta Hermano. “Eu também estava muito inspirado por Sartre e quando me apresentaram o livro, na época de um autor estreante, eu automaticamente me apaixonei pelo personagem”, revela o diretor.

O escritor contou que escreveu o livro nas madrugadas, quando tinha tempo, depois de ralar em três trabalhos diferentes. Era o início de tudo. A falta de ponto final em Sargento foi graças ao whisky. “Já fizeram até tese sobre a falta de ponto final no encerramento do livro, mas vou confessar uma coisa que talvez ninguém saiba: aquilo foi graças ao whisky”, conta Ubaldo arrancando risos da platéia. “Eu estava bêbado e disse, amanhã eu olho, e no dia seguinte acabei deixando como estava”.

Não faltaram relatos e citações da infância, da intensa amizade com Glauber, Dorival Caymmi, sobre janeiro na Ilha de Itaparica, sua vida nos Estados Unidos, nem sobre suas inspirações. “Estou reavaliando a vida. O Rio é pertinho, deu pra estar com vocês”. Erudito como poucos autores, Ubaldo em sua simplicidade, não deixou de discorrer sobre o ἀρετή (aretê) grego para explicar a empatia que todos têm pelo personagem, mesmo reconhecendo nele um facínora  “Getúlio exerce um fascínio pela lealdade que tem à sua própria identidade. Ele tem o seu aretê, a sua virtude. Mas não é a virtude cristã, é a virtude para o herói grego, a fidelidade a seus princípios”.

Sargento Getúlio não deixa de ser Hamlet, afirma o autor de “Viva o Povo Brasileiro”. “Eu nunca vou morrer, Amaro. Eu nunca vou morrer”, brada o personagem em cena antológica de Getúlio. Eternidade para os autores e suas obras.

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DJ Sankofa na Vila Mariana (SP/SP)

Lembrando a antropóloga Goli Guerreiro e seu trabalho criativo sobre a Terceira Diáspora, apresento o DJ Sankofa. De origem Fante, Akan, ganês, DJ Sankofa responde no “passaporte” pelo nome de Justine Lloyd Ankai-macaidoo.

Figura conhecida em Salvador, o DJ é o timoneiro do Bar do Sankofa, no Pelourinho, um dos pontos mais agitados, multiculturais e divertidos da noite soteropolitana.

Ousado, o artista quer dialogar cada vez mais com o atual cenário nacional, onde o Brasil dá indícios de estar estreitando os laços com o continente. Justine adotou o nome do mito ganense Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer), um pássaro mítico que voa para frente tendo a cabeça voltada para trás. Vindo de um provérbio tradicional entre os povos Akan, o mito diz “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”, ensinando a possibilidade de voltar atrás, às nossas raízes, para poder realizar nosso potencial para avançar.

Veja entrevista com o artista que passou por São Paulo para tocar num espaço cultural da Lapa.

Você acha que tem sido responsável por levar música de África pra Bahia?

Acho que sim. Foi muito importante, uma coisa bem pensada antes. Bahia é o terceiro lugar onde existe mais negros no mundo. Existiam coisas que realmente deixavam Bahia fora da África. Existe muito desconhecimento musical, cultural, então por esse motivo eu fui para lá.

Você chega direto na Bahia?

Não, primeiro aqui em São Paulo. Eu era cabeleireiro na época. Trabalhei em São Paulo fazendo cabelos no salão e ganhei um concurso onde o prêmio era passar uma semana em Salvador. Fui e nunca mais voltei. Esqueci tudo. Esse ano era 2002, eu cheguei no Brasil em 2001. O Brasil ganhou a Copa e o Lula foi eleito para a presidência. Toda aquela festa. Eu fiquei de vez.

Que paralelos traçar entre a Bahia e Gana, Bahia e África? Além da cor da pele.

Eu acho que se a gente falar da África, é muito e grande e eu não conheço, mas mesmo assim posso dizer que tem muitas coisas. Culturalmente, coisas de antiguidade, a exemplo de ir na Liberdade e parece que estamos em Acra. O jeito de estar na rua, de se vestir, de botar toca. Se você não falar pode se sentir no mesmo lugar. Até musicalidade, vários ritmos, você sente o africanismo. Música é o começo, a chave de entrada. América do Sul e África não tem muita conexão, África está mais em conexão com Europa e Estados Unidos. Tem muita falta de conhecimento de achar que a música africana é só batuque. Acho que falta educação básica para estudar África e conhecer as diferenças de países. Muita gente pensa que é um país, é o maior continente da terra com mais de 50 países. Estou trazendo conhecimento da África do Oeste que tem mais a ver com Salvador, com o Brasil. Eles percebem que na África não tem só guerra, pobreza, doenças. Se eles fecharem um acordo de que África é tal imagem, não vai dar certo, e por isso estou fazendo este link.

E São Paulo se conecta?

São Paulo é uma grande cidade mundial. É um avanço, encontra-se gente de vários países na cidade. Mas não vejo grande fonte de cultura, um começo só. Economicamente tem vários africanos que moram aqui, vários consulados, mas não vejo o tipo de trabalho que se faz. Quando você sai de um país para o outro você está em busca de vida melhor. Eu venho de família pobre, humilde. São Paulo oferece trabalho, negócios, vendas de artesanatos, é um grande lugar de consumo, mas não sei que tipo de consumo os africanos fazem aqui. Conheço estudantes que fazem mestrado, doutorado, mas não sei a conexão do imigrante com São Paulo.

Quais suas lembranças de Gana?

Se eu começar a contar não termino. Família, principalmente. Estou longe da minha família há mais ou menos 22 anos. É este o tempo que sai da casa dos meus pais. Tenho lembranças das comidas, do futebol. Todo dia a gente joga futebol. Eu parei de estudar só pra buscar vida melhor que a família não oferece. Não tive condições de estudar porque meu pai não tem dinheiro, minha mãe morreu. Tem que botar a cabeça no mundo, dentro de Gana, fora da minha cidade, depois pra outros países e fora do continente. Comida, famílias, amigos, cultura, brincadeiras, praia, tudo me lembra.

E o povo Akan?

Akan é muito grande, é metade de população de Gana. Eu sou Akan, Fante, porque Akan é uma grande tribo que tem várias etnias. Grupos que fazem a diferença, exemplo Fante, Ashanti. Isso muda. Algumas tribos são únicas daqueles lugares. Fante só tem uma tribo em todo mundo, aquela língua só fala em um lugar, você não acha outro. Quando os colonizadores chegaram, não sabiam.

Como explicar a diversidade musical africana?

Parece tentar ver quantos peixes tem no mar. É muito rico e infelizmente a América do Sul não conhece as músicas africanas. Eu digo as de hoje em dia. A música africana, cada país, cada tribo, tem música nacional, tribal. É muito grande, não dá pra adivinhar. São diversos ritmos línguas, uma loucura, bilhões. A música de Gana começa a fazer sucesso em 1920 que tem highlife, funk, que até James Brown se inspirou. Afrobeat são as diversas músicas como funk, highlife, soul, blues, metais, é muito grande. A gente é muito cuidadoso. Mbalax no Senegal, Burkina Faso. O africanismo está mais na moda no Brasil, tem movimentação grande, principalmente no nordeste. Em Salvador começamos fazer isso há oito anos. Estou contente. O brasileiro está aberto pra conhecer Africa. Musica africana é o futuro. Fui pra Gana este ano e os europeus compraram tudo. Eles vão porta a porta. Você tem dinheiro eles vendem. Tem muita pessoa interessada na musica africana.

Por que Fela Kuti gostava tanto de Gana?

Gana é entrada e saída da Africa, do continente inteiro. Foi o primeiro a ganhar independência. Foi onde os colonizadores entraram, é pequeno. A riqueza de Gana era ouro, Gana era muito rica e pouco povoada. Quando ganhou a independência ajudou outro países como Burkina Faso, Guiné Bissau. Então não só Fela, a mãe de Fela era amiga de Kami Kuma. Então a mãe sempre levava Fela pra conhecer Kami Kuma, um guerreiro que todo mundo conhece, que incentivava o africanismo, que defendia a economia interna. Ele que brigou pra Africa ser unida e um próprio ganês traiu ele. A Africa nunca vai ser unida. Não existe. Assim como é impossível unir a América do Sul. Cada país é um país. É um grande erro unir Africa. Poucas pessoas comem a riqueza do mundo. Não tem paz sem guerra. Estou tentando mudar a imagem da África. As vezes eu falo: eu não sou africano. Eu sou ganês. Eu não chamo nenhum brasileiro de americano do sul.

Que música você faz hoje?

O som de Sankofa tem vários estilos e ritmos de vários países africanos e latinos. Escolho musicas tradicionais e tribais que a mídia não toca, que o glamour não admite. Tem comercial muito grande com musicas feias, esculhambação de mulher, com sensualidade, que fala de estupro, de mal tratos. Minha proposta é o contrario, tocar músicas culturais que trazem letra, poesia, com bem estar, historia, como o samba rock. Você não vê letras feias no samba rock, na MPB, então comparando as musicas, é como samba, samba de fundo de quintal, como Cartola, este tipo de artista. Eu mixo tudo e faço minhas produções em cima das músicas com os sons deles e toco musica latina como salsa, merengue, que também são tradicionais. Minha proposta é outra, música de dançar junto, que traga o amor, o bem estar. É isso aí.

Conheça o bar do DJ Sankofa: http://www.sankofabrasil.com/

Escute alguns sets do DJ Sankofa: http://www.myspace.com/djsankofaoficial

Sankofa em ação: http://youtu.be/iOmepOwAjQw

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Ele canta, dança, divulga as tradições culturais brasileiras em Boston. Há 8 anos vivendo nos Estados Unidos, o ator nascido em Vitória da Conquista fala de sua experiência em terras norte americanas, suas impressões sobre o Brasil. Robson coleciona histórias incríveis, muitas impossíveis de serem relatadas, mas que acabarão um dia indo para as telas. Atualmente, ensaia “Navalha na Carne” de Plínio Marcos, que tem estréia prevista para março. Robson interpretará o papel de Veludo, um veado “tinhoso”, nesse que será seu primeiro espetáculo em inglês.

Marcelo de Trói: Quando você pensa na Bahia aqui no Hemisfério Norte…
Robson Lemos: Me lembro de um dia em que eu estava confuso, triste pela Avenida Sete, e fui parar no Porto da Barra. Lá eu chorei vendo o por do sol. Lembro dessa cartase da Bahia que faz você estar presente na terra.
MT: Como foi chegar aqui? E como a Bahia está presente aqui?
RL: Quando eu cheguei em Salvador eu fui saber o que era sertanejo e quando cheguei nos Estados Unidos descobri que eu era brasileiro e baiano. De estar bem com tudo, com a neve e estar curtindo agora, por exemplo, esse frio de dois graus nesse feriado americano: o Thanksgiving que é o Dia do Peru. E o que é este feriado? Num periodo de muito fome, muita miséria, de muito frio, os americanos não tinham o que comer, e o que começou chegar em bandos ao redor, perus, cantando alegremente. Eles são o símbolo do Thanksgiving, do agradecer, foi o peru que ajudou a matar a miséria nesse período de grande fome.
MT: E por isso tão importante toda essa cerimônia, até na Casa Branca, quando presidente dá o perdão para o peru (risos). Assisti ao vivo pela internet.
RL: Interessantíssimo. E isso significa que o americano não quer mais sofrer esta miséria, quer continuar em ambundância.
MT: E como você acha que toda essa cultura louca interfere na sua arte?
RL: O mundo está extremamente globalizado e eu consigo ver a globalização do Brasil. Existe tanta diferença, mas tudo está tão proximo. A diferença ainda é a política, a economica e principalmente, a questão da Justiça. Se eu pudesse falar asssim, o que mais me irrita, o que mais me deixa inseguro na volta para o Brasil é a questão da Justiça. Todo mundo come lá, vive feliz com o pouco que tem.
MT: E aqui também.
RL: Aqui também. E ninguém aqui é rico, mas a questão da Justiça pesa muito. A impunidade. O Brasil tem uma coisa terrível em relação a isso e que precisa ser mudada. Uma coisa que sempre trabalho na minha arte é a necessidade humana. Algumas necessidades são básicas para todos os seres humanos, independente da língua. Uma delas: o amor. Envolve todo mundo. As necessidades físicas, a força da fome, a força do desejo, tudo pode ser colocado na arte. A força da sede. São universais e atingem a todos.
MT: Você é de Vitória da Conquista e traz um pouco dessa coisa da fala, uma coisa forte, você tem um pouco da verborragia baiana, ao mesmo tempo tem uma coisa forte, de sabedoria. Tem uma força do Sertão em você.
RL: Não existe espaço definido onde vai acontecer o movimento. Existe força e o movimento dentro de cada pessoa. Você tocou nessa coisa do sertão. Pois eu vou te contar uma: na minha infância, minha família foi convidada pra ir para um casamento em Vista Nova. Uma vila muito pobre. A moça andou várias léguas para casar e ela andou de vestido de noiva. Teve que andar descalça por que não aguentou, aquela terra vermellhar, coisa linda, aquela terra dura do sertão e todo mundo atrás dela. Coisa linda. Fomos até o lugar, rolou o casamento e o pai da mulher matou bois, galinhas, aquela farofa, aquela festa linda. O que achei mais lindo no meio disso tudo, é que apareceu um senhor, todo de branco, muito distinto, e esse senhor me fez um discurso que não entendi muito bem porque eu era criança, mas era tão bonito. Depois eu procurei saber quem era e meu pai disse: aquele senhor é uma pessoa de pouca escolaridade.
MT: E quantas experiência você não deve ter tido, porque o sertão tem essas figuras maravilhosas, mestres, beatos, gente com um outro tipo de conhecimento. Você cresceu sonhando em ir pra capital?
RL: A minha necessidade não era ir pra capital porque eu acho que não sou uma pessoa urbana. A minha questão era ir para um lugar diferente, conhecer culturas diferentes. Quando eu sai do sertão e fui pra Salvador foi diferente. O sertão me trouxe poesia. Salvador me trouxe uma coisa física, é uma cidade viril, uma cidade sexual. Naquele momento eu me fragilizei porque eu estava dentro do meu próprio corpo e interagindo com tudo, enquanto homem e enquanto artista. Eu posso dizer que na minha vida o que eu tinha pra sofrer eu sofri em Salvador. Eu me criei em Salvador, com resistência. Salvador tem uma coisa violenta presente na coisa física e na pobreza. Eu acho que foi válida a experiência. Em Boston, foi a comunicação. De você conseguir ler todas essas experiências e conseguir se comunicar. Porque o artista é um comunicador. Isso envolve tudo, conteúdos, comentários.
MT: Se você tivesse que dar nomes a quem te influenciou.
RL: Eu gosto muito do Caetano Veloso, da arte, da música. Eu tenho aquela coisa baiana de gostar de Caetano, Bethânia, normal. Mas tem uma coisa de amar Elomar Figueira. Esta semana eu escrevi um roteiro ouvindo a música de Elomar Figueira. Que traz coisas gigantescas do sertão, muito forte. Mas aqui nos Estados Unidos eu amo música de preto porque eu amo a percussão, então tudo que é rap, reggae, tem um cara inclusive que é da Jamaica, influenciado por Bob Marley, Sean Paul, ele é fantástico, tem músicas maravilhosas, mistura reggae jamaicano com hip hop. Levanta. E ligado a questoes politicas. Tenho amado a Beyonce que é negra, jovem, tem um trabalho lindo.
MT: Você me falou de um conhecido que parecer ter conseguido o primeiro asilo político por provar que os direitos LGBT não são respeitados no Brasil…
RL: A gente começa analisar as coisas de forma individual, e com isso a gente acha que o problema é nosso ou do outro. O que eu quero dizer com isso: quando você a questão da homossexualidade no Brasil e nos Estados Unidos existe grande diferença. Aqui, você vê uma questão de ordem política e de direitos, e é uma questão maior. Vendo assim, também podemos comparar uma coisa e outra. Um conhecido que mora aqui há 20 anos, foi pego pela imigração, sem documentos, e ele disse a juíza: eu estou aqui há 20 anos e me sinto bem em estar aqui pela questão do respeito ao homossexual. Ele sabia que se vivesse no Brasil poderia estar morto. A juíza ficou comovida com isso e pediu a ele que provasse. Durante três anos, ele juntou vários eventos de assassinatos de abusos contra homossexuais e consegui um asilo, digamos. Foi uma proteção a vida dele.


Robson Lemos em seu quarto em Somerville.

MT: Foram muitas lutas. A revolução contra a escravidão começou aqui em Boston, tem um outro olhar, uma herança…Um sentimento de Justiça, tipo, o cara do spray de pimenta que atacou os estudantes na Califórnia, foi afastado…
RL: Eles tentam controlar o abuso do poder, vetar o abuso do poder, coisa que no Brasil, infelizmente, não é controlado. No Brasil, se o cara é policial e ele te aborda na rua, ele te dá um tapa na tua cara, um murro no teu peito e acabou. E daí? Você vai reclamar que ele fez isso com você? Quer dizer, eu acho que aqui existe uma preocupação de nivelar as pessoas. Quer dizer, a polícia tem o seu papel dentro da sociedade, mas ele tem o limite. Isso é sociedade. Não é porque você tem um revólver na mão ou porque é um político, você pode abusar do poder. Isso é terrível.
MT: Ainda tem um pouco daquele ideal da “América”não é? Uma terra dita “livre”, com oportunidades iguais. Isso foi forjado aqui em Boston e engraçado hoje ser Thanksgiving, e eu vi ainda pouco algumas gravuras dos colonizadores sentados com os índios. Quer dizer, esses valores ainda são perseguidos pela sociedade americana, mesmo com toda a corrupção. 
RL: Eu nunca tive oportunidade de conhecer os nativos americanos. Os índios. Então eu fui convidado pra ir até Nebrasca para um congresso de arte e educação com Augusto Boal. Passei uma semana lá. Uma cidade que tinha milho, e eu comi milho até não querer mais. Tudo muito barato, as pessoas muito hospitaleiras, eu chegava nos lugares e ninguém deixava eu pagar nada. Eu senti uma coisa de interior, do sertão da Bahia. Resultado: rolou o congresso, umas 500 pessoas do mundo inteiro fazendo homenagem ao Boal, e eu conheci um índio. Aquele cabelo preto, aquela cara, eu achei que era mexicano, fui falar espanhol com ele. Ele disse que não falava espanhol e que era índio norte-americano. Native india. Ele usava pena, tava lutando por questões ecológicas dentro da teoria do Boal. Foi um encontro fantástico. Em determinado momento, a gente estava num auditório enorme, lotado e Boal disse em inglês: “A Constituição desse país, precisa ser revista, porque ela é uma brincadeira, como você pode fazer a constituição de um país inspirado na Bíblia. Religião e política não tem nada a ver”. Ele falou isso e foi muito forte. Ele falou com um desdem, sarcastico. É muito poder, muito conhecimento para você chegar em um país, dentro de um auditório de uma prefeitura e fazer uma afirmação como essa. Eu achei muito forte. Pra eu quebrar minha opressão, a primeira coisa que fiz foi tirar minha sandália, avisar todo mundo, e depois disse que meu inglês não era tão bom mas que eu iria falar do jeito que eu poderia falar, sem opressão. Comecei assim.
MT: Há quem critique a terminologia Teatro do Oprimido.
RL: Eu acho que o Teatro do Oprimido é só uma terminologia para dizer que todo mundo é oprimido. Acho que temos que descobrir a opressão e liberar. Eu queria contar um fato interessante que aconteceu comigo aqui na estação de Beverly, Massachussets, onde estamos chegando agora. Tinha uma moça bonita na estação e ela falou em português: Robson, tudo bem? Você não se lembra de mim. Eu olhei pra ela assim, surpreso, e disse, “mais ou menos”. Ela disse assim: eu sou esposa de fulano de tal. Era mulher de uma das pessoas que trabalhava comigo no restaurante. Em questão de minutos, ela começou a falar da vida dela para mim e ela disse que nos sete anos que ela ficou no Brasil sozinha, ela arranjou um outro homem lá, porque mulher, não consegue viver sozinha, depois que tem marido. Ela me falou que assim que chegou aqui ela percebeu que tinha todos os direitos que ele tinha e que o mais importante naquele momento é que ela tinha o direito, e era oportunidade, de trabalhar e fazer o dinheiro dela. Ela disse que estava pensando em se separar. De início eu posso te dizer, se eu fosse usar minha questão moral de homem que nasceu e cresceu no Brasil eu poderia dizer: é uma mulher, digamos, sem moral, sem escrupulo? Mas tendo uma visão internacional, eu posso dizer assim: ela é uma mulher que está a procura da independência dela. Mulher aqui tem muita oportunidade aqui, mais que no Brasil. Então existe muito conflito entre brasileiros que vêm para cá. A conquista econômica é muito forte e o brasileiro, infelizmente, tem uma coisa muito machista dentro dele. A mulher aqui é muito protegida pela lei. Tem tanto abuso no Brasil.

Assista este curta com Robson Lemos:
Venha ver o por do sol

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iBahia – “Quando eu cheguei em São Paulo eles não sabiam nem meu nome”, Daniela Mercury em entrevista (parte 1).

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