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Posts Tagged ‘Bom Jesus dos Passos’

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Meu amigo, minha mãe. Hoje acordei antes mesmo do sol nascer com a triste notícia da sua partida para o Além. Eu chorei por não ter te dado um último abraço. Tentei não levar a sério nossa última conversa quando você disse que estava morrendo. Tudo repentino e indigesto. Assim é essa vida misteriosa em momentos dolorosos.

Cheguei até você pelo seu primo Raul Willian, o lendário figurinista e diretor de arte da última fase dos filmes de Glauber Rocha. Foi afinidade a primeira vista. Desde então, não conheci casa mais anárquica e democrática que a sua. A Ilha de Bom Jesus dos Passos, esse pequeno pedaço de terra no centro da Baía de Todos os Santos, era o seu paraíso e sua prisão. Você carregava o nome dessa ilha no nome: Izolino Passos. Seus antepassados fundaram aquele chão.

Quantas alegrias não tive na sua casa generosa, onde todos comiam, dormiam, amavam. Você nunca discriminou ninguém. Quem chegava comia, quem chegava dormia. Casa da fartura, dos cuidados. Cuidava dos animais, das suas plantas, das festas populares. E incrível que você parta hoje no dia de S. Francisco de Assis.

E tão bom era sentar na varanda ou na sua mesa e ouvir você falar de Waly Salomão e muitas outras pessoas incríveis que passaram por ai. Foi debaixo desse teto que Sganzerla descansou escrevendo “Nem Tudo é Verdade”.

Ah! Zoco! Fica ecoando em meu ouvido a sua esculhambação contra os políticos, as historias da ilha, absurda e engraçadas, de mulheres velhas com clitóris enormes que os mostravam sem nenhum pudor, de veados enlouquecidos dançando na varanda, de pessoas dóceis, perversas, de pais de famílias, putas, feiticeiros, católicos, evangélicos, bandidos: todos se curvavam diante de sua generosidade e amor.

Todos queriam estar com você e sua imensa cultura, sua arte incrível, apreciar suas miniaturas de cera de abelha, recordar os carnavais da Bahia que receberam sua decoração, admirar as obras de arte sacra na secular igreja do Senhor dos Passos, o amor por Yemanjá. Casa que misturava as heranças portuguesas e africanas do leste brasileiro. Zona Autônoma Temporária. Morre contigo um pouco da Bahia.

Eu mesmo levei obras pintadas por você para a Itália, São Paulo, Caribe, Estados Unidos. Elas continuarão emanando sua alegria. Aqui mesmo no Copan, seus quadros trazem uma alegria incrível para as paredes de Niemeyer.

Uma pena que você não tenha tido o reconhecimento que sempre mereceu. Sem dúvida, um dos maiores artistas dessa terra.

Obrigado pelos caminhos que me ajudou a trilhar e por proporcionar o maior encontro que eu poderia ter com o sagrado e o popular. Numa tarde de verão, você mesmo empunhou o espelho da Rainha e fomos até a beira do mar, onde você me desejou sucesso e longa vida.

E jamais esquecerei do mês de Maria, das festas de Caboclo, do São João, de Santo Antônio, do Carnaval, das tardes e noites que saímos em procissão dentro dos barcos pelos mares da Bahia, para entregar o presente em agradecimento a Rainha do Mar. Odoyá!

Onde quer que você esteja, meu amigo, desejo que sua alma libertária esteja feliz e calma, pois você jamais será esquecido.
“Senhor Manágua, que vem de Lisboa, Que beleza, nas ondas do mar! Que beleza, nas ondas do mar!”

Muitos beijos.
com amor, do seu amigo Odé Wayê

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Odoyá!, upload feito originalmente por marcelodetroi.

Veja neste álbum as obras de Isolino Passos, mestre de arte popular que vive na Ilha de Bom Jesus dos Passos (BA).

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LÁBIO BRANCO, upload feito originalmente por marcelodetroi.

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