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Posts Tagged ‘Dilma’

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Charge de Ivan Cabral.

“Os políticos são mais conservadores que a sociedade”, tem dito com frequência o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em suas últimas entrevistas. Isso quer dizer que o primeiro objetivo dos políticos é o voto pois eles querem se manter onde estão: no poder. No caso dos parlamentares, falam sempre aquilo que a maioria dos eleitores querem ouvir e votam no Congresso Nacional por questões que são consenso na sociedade. Se a questão não for um consenso ou se não houver pressão popular, o deputado ou senador, se sente livre para votar em favor dos seus interesses particulares e sua ideologia, seja ela qual for.

Para saber o que a sociedade quer ouvir, existem as pesquisas qualitativas e quantitativas. Elas são a base da publicidade, e os publicitários as usam como guia para produzirem discursos e aparências vendáveis a população em anos eleitorais.

No executivo se passa o mesmo. Por exemplo: a candidata Dilma, ao abrir sua campanha na televisão em 2010, se não me falha a memória, segundo programa, prometeu uma luta dura contra o crack que vem destruindo famílias de norte a sul do país. Se há um consenso entre as pessoas que se interessam por questões relativa às drogas, é de que o crack deve ser duramente reprimido. No entanto, estamos chegando ao final do seu primeiro ano de mandato como presidenta da República, desconheço alguma campanha nacional de prevenção e informação dos efeitos do uso do crack. O que vemos até o momento são ainda campanhas genéricas sobre o uso de drogas, o que é em sim um libelo a desinformação, pois colocam todas as drogas ilícitas, da maconha ao crack, no mesmo nível de periculosidade.

Outro exemplo de descompasso democrático: o fenômeno da aprovação do novo Código Florestal, que marca o fim de qualquer política ambiental do país e que poderia ser chamado Código da Agricultura. Veja bem, há pesquisas que indicam que 80% da população é contra as alterações ambientais que o Congresso brasileiro pretende aprovar com ampla maioria. Ou seja, há um enorme consenso, sobre como deve ser tratada a questão, mas esta enorme vontade da sociedade vem sendo escandalosamente ignorada pelos senhores deputados e senadores. Inversamente ao que a sociedade pensa, 80% dos deputados votaram a favor das alterações do código florestal na Câmara dos Deputados e, provavelmente, o mesmo percentual se repetirá no senado brasileiro. Como pode os políticos ignorarem tamanho consenso da sociedade?

Há um outro fator fundamental para a eleição de qualquer político brasileiro: o dinheiro. O custo das campanhas eleitorais no Brasil vem subindo ano após ano, com índices muito acima da inflação. Apesar do custo da eleição variar de candidato para candidato, há uma média. Um político muito conhecido com uma estrutura partidária na sua mão não gastará menos do que 2 milhões de reais para se eleger e uma pessoa desconhecida que nunca se candidatou e quer se eleger a qualquer custo não gastará menos de 10 milhões de reais. Esse é o cálculo, mesmo que as contas aprovadas no TRE não informem esses valores. Isso, evidentemente para cargos legislativos, para os cargos do poder executivo, prefeito, governadores e presidente, os valores sobem astronomicamente de acordo com o poder econômico e político do cargo. Mas é claro que há exceções, um fenômeno como um Tiririca, que virou uma espécie de celebridade, tem mídia gratuita e carregou uma multidão de eleitores como forma de protesto.

O dinheiro é o ponto. O custo para chegar ao poder é quase uma impossibilidade ao cidadão comum. O agronegócio tem crescido, em virtude da entrada no mercado de consumidores de alimentos das populações de países como a Índia e a China, e bancado muitas eleições, cada dia mais, ou comprando o voto dos que não receberam doações nas campanhas eleitorais.

O político precisa do dinheiro para bancar a próxima eleição, mas não pode ir contra um consenso tão amplo da sociedade e da opinião pública.

Hoje eles apostam no esquecimento rápido da população brasileira, no velho ditado: “brasileiro não tem memória”. Não é atoa que estão correndo para fazer todas as votações este ano que não há nenhuma eleição. Ano que vem, quando eles vierem pedir o voto nas campanhas, ninguém se lembrará quem vendeu nossas matas, florestas e condenou nossas águas a escassez. Apostam na nossa ignorância.

A pressão popular este ano não fará grande diferença. Os políticos brasileiros acreditam no esquecimento, tanto quanto achamos que a ditadura militar é um passado longinquo que não afeta mais a nós cidadãos de hoje. Eles sabem que nem lembraremos do nosso extinto código florestal, em 2012, quando alguns sairão candidatos a prefeitos, nem daqui a três anos, quando o restante tentará a reeleição.

Devemos mesmo torcer para que os parlamentares que ainda lutam em prol do meio ambiente consigam adiar a votação final ad-infinitum, como muitos projetos de lei que demoram décadas pra serem votados, quando não são esquecidos nas gavetas do Congresso. A nós, cidadãos comuns, impotentes diante do fracasso dos sistema representativo, devemos guardar e divulgar o nome de cada um que votou contra o desejo de vida que a sociedade já manifestou. Devemos evitar o esquecimento.

A nossa lenta vingança, nosso deleite, é que a cada eleição, uma renovação natural dos parlamentares acontece. Isso quer dizer que uma parte dos vendedores de nossas florestas e águas perderá o poder daqui a três anos. E nós estaremos aqui, neste mesmo local, brindando aos que não se manterão no poder. Eu darei risada da cara deles, votarei contra eles e brindarei por suas derrotas.

Igor Penna trabalha com audiovisual. É diretor de “A Morte de DJ em Paris” (2011) e “Orgia“(2009).

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Yes, we are in America! São tantas impressões e tantos sentimentos desde que cheguei aqui que se eu fosse relatar seria incapaz de fazer em um post. Nova Iorque é a cidade mais incrível que já tive a oportunidade de conhecer na vida. Me impressiona o fato de os norte-americanos terem transformado essa ilha num conglomerado de arranhas-céus com cerca de 450 estações de metrô.

O verão por aqui é quente igual ao do interior paulista e a cidade é bem menos frenética que o imaginável. Sinto-me diariamente dentro de um filme. Os novaiorquinos são bem humorados e, ao contrário do que se diz, são gentis. Tudo é ´excuse-me, sir´ e ´thanks´. O Brasil está na moda, estamos por cima da carne seca, e a qualquer indício de sermos brazuca, vem logo um sorriso no rosto, uma pergunta sobre esse país distante. Dilma também está em alta por aqui e todos sabem que somos governados por uma mulher.

Gosto de acordar bem cedo, junto com o sol nascendo às 5h30, correr nos parques e voltar pra casa para ler o New York Times tomando o breakfast. Passamos o dia flanando pela cidade, rindo do ´american way of life´, lendo Henfil e notando as mudanças da América dos anos 70 e a do século XXI.

Digo para os amigos americanos que são três os males da América: bed bugs, engasgos e a dívida. Os bed bugs são uma espécie violenta de percevejo. Eles infestam hotéis e residências, principalmente na costa leste. Picam sua pele, chupam seu sangue e seu ovos podem sobreviver por até um ano em camas, carpetes e cortinas. Tem americano que tem tanto trauma dos bichos que chegam a ficar sem dormir. Um país que criou soluções para quase tudo o que você possa imaginar foi incapaz de exterminar esses monstrinhos.

Os engasgos são outra tragédiga americana. Qualquer restaurante em que se entra, tem um informe na parede explicando como ajudar um engasgado. A coisa não é brincadeira e pode matar. Fomos comer em um restaurante vietnamita na Chinatown e vi uma criancinha de 4 anos quase morrer. Foi horrível, mas tudo ficou bem no final. Apenas a voz chorosa da garotinha: ´Mummy, still hurts…´

Vamos à última e terceira tragédia: a dívida americana. Desde que chegamos não se fala em outra coisa: crisis, default, debit. Manchetes diárias nos jornais e tevês. ´Yes, can we?´, perguntam ironicamente os americanos. Mas os sinais não são tão visíveis, a não ser pelo fato de que tudo aqui é mais barato que no Brasil com exceção do aluguel. Às vezes, tudo parece mais um complô dos republicanos contra o primeiro presidente negro.

Enquanto Obama é chantageado pela dívida, Dilma é chantageada pela escória política… Olho o Brasil a distância, os Estados Unidos de perto, mil pensamentos passam pela minha cabeça, sobre nossas diferenças, semelhanças. Nas ruas, fico encantado com tantos tipos estranhos e originais desse imenso país.

Aos poucos vou entendendo o significado de conceitos como Liberdade, Estado de Direito, Democracia, liberdade de imprensa. Essas coisas são reais nessa banda da terra. Aqui você pode tudo e principalmente, pode ser o que você quer ser, sem ser julgado por isso. E a qualquer sinal de medo ou encucação de quem sempre viveu vigiado, sou sempre alertado por meus amigos: You are in a free country, man!

ps: meu amigo foi tirar sua carteira de motorista para viajarmos de carro até a costa oeste. Não fez aulas, não entrou em nenhum cartório miserável, nenhum despachante explorador, quase nenhum documento apresentado. Pouca fila no departamento de trânsito. Em menos de um dia, depois de responder a 20 questões e pagar 20 dólares, estava com sua ´driver´s license´. Isso sim é eficiência em serviço público.

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