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Márcio Meirelles em

Márcio Meirelles em “As Palavras de Jó”, texto do dramaturgo romeno Matei Visniec (foto de Eduardo Coutinho)

Disse então o Senhor a Satanás: “Repa­rou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal (…)” [Livro de Jó – Cap.2 Versículo 3]

O dramaturgo Matei Visniec teve sua obra teatral completa publicada no Brasil em 2012. Não é exagero dizer que a Bahia foi um dos locais que melhor acolheu o romeno, mais precisamente o Teatro Vila Velha que hoje conta com cinco peças de Matei em cartaz. Numa atitude corajosa e independente daqueles que teimam em produzir arte no Brasil.

Fim de semana passado, estive rapidamente em Salvador e não pude deixar de ver o retorno de Márcio Meirelles aos palcos como ator, após 36 anos. Meu relato sobre o que vi é absolutamente pessoal até por minha proximidade com Meirelles.

A começar pela genialidade e intertextualidade do texto de Visniec, o Jó do espetáculo, ao contrário do Jó bíblico, é um personagem fiel ao humano. Com todas as atrocidades que passa, mantém incólume sua crença no valor da humanidade. Vivendo todo o terror do regime ditatorial da Romênia, a obra de Visniec é recheada de um vigor que aponta as dores e contradições profundas do homem.

Márcio, que sempre presou pela coerência tanto como gestor como quanto artista, parece criar um rito de iniciação em sua volta aos palcos. Com aparência sombria, claros e escuros que remetem ao Butô, não pude deixar de fazer relação com outro amigo do Vila Velha: Tadashi Endo. Meirelles mergulha fundo na frustração de Jó que sempre abre espaço para a redenção do humano, independente da consequência. Pela ira dos homens que chegam das quatro direções, Jó perde as mãos, os olhos, os ouvidos, a língua, mas sua fé na humanidade é imbatível.

Próspero afirma em A Tempestade (outro texto por qual Márcio é apaixonado) que somos feito da matéria dos sonhos. O cenário de palavras projetadas em “As Palavras de Jó” revela que, para Visniec, somos feito da matéria de nossos discursos. No princípio era e sempre será o verbo. É a palavra que carrega não apenas todo o material de trabalho dos atores, mas é o princípio básico de todas as nossas ações, para o bem e para o mal.

Em um mundo onde os ruídos, opiniões, discursos, agressões e palavras pululam nas redes sociais, o espetáculo mostra que somos, antes de tudo, aquilo que dizemos e executamos.

É compreensível a insistência de Matei para que Márcio encenasse e atuasse em Jó. É nesse ritual de sangue, carvão e cinzas que Márcio volta de corpo e alma para o palco, nu, inteiro, de cabeça raspada como nas cerimônias iniciáticas. É no palco do Teatro que ajudou a reerguer que renova sua esperança não só nos homens, mas no poder da palavra e sobretudo, no poder do Teatro. Merda!

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Rangel, Elomar, Fábio Paz e Luiz Caldas no estúdio WR

Rangel com Elomar, Fábio Paz e Luiz Caldas no estúdio WR

O Brasil, sem dúvida, é uma referência quando se fala em documentário. Isso já ficou claro até mesmo pra Hollywood que na penúltima edição chegou a estampar o rosto do nosso maior documentarista, Eduardo Coutinho, na festa de premiação.

Nos últimos anos, documentários produzidos no país tem ganhado destaque, principalmente aqueles ligados à música, provando que há público para o gênero.

Uma nova produção promete contar uma história pouco conhecida dos brasileiros. A Bahia e sua produção musical são responsáveis por um dos mais importantes capítulos da história da música no Brasil. E a WR Discos, um estúdio criado em 1975 por Wesley Rangel, teve muito a ver com isso. Além de ser o grande catalizador da criação da Axé Music, o estúdio WR foi o ponto de encontro entre músicos, poetas, produtores e técnicos, possibilitando dar vazão a talentos como Luiz Caldas, Carlinhos Brown, Gerônimo, Silvinha Torres, Roberto Mendes e tantos outros.

O jamaicano Jimmy Cliff

Rangel com o jamaicano Jimmy Cliff

Essa história começa a sair do limbo com o documentário dirigido por Nuno Penna. A produção é de Igor Penna e Mina Ishikawa, a mesma equipe responsável pela produção de A Morte de DJ em Paris (2011). Para o documentário sobre o estúdio WR, a equipe já realizou entrevistas com o produtor musical Roberto Sant’Anna, o cantor Paulinho Caldas, o músico Carlinhos Marques, o técnico de som Vivaldo Menezes, o locutor Jorge Cunha, dentre outros nomes chaves para se compreender a história dessa espécie de Abbey Road baiano.

Foto recente da equipe na  casa de Luis Caldas

Foto recente da equipe na casa de Luis Caldas

Também ajudam a contar a história do lendário estúdio, o produtor musical Alexandre Lins e o cantor Luiz Caldas. “É comum afirmar que a WR formou um mercado fonográfico na Bahia. Mas ainda assim essa afirmação está longe da real dimensão da WR na música da Bahia”, explica Nuno. “Ela foi responsável pela formação técnica e profissionalização de toda uma geração de músicos, produtores, técnicos de gravação e assistentes de estúdio”, completa o diretor.

Durante a década de 90 a WR continuou a gravar os maiores nomes da música baiana e até nacional, como Marisa Monte, Caetano Veloso, Simone, Fafá de Belém e tantos outros. O terraço do prédio construído na Rua Maestro Carlos Lacerda, onde há um café, com vista para avenida Garibaldi era o ponto de encontro preferido entre compositores como Vévé Calazans, Gilson Babilônia, Dito, Saul Barbosa e tantos outros. O documentário registra o reencontro desses músicos numa espécie de celebração ao estúdio que foi espaço para toda essa transformação ocorrida no mercado fonográfico. Agora é aguardar pra conferir o lançamento previsto para dezembro desse ano.

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Imagem

o por do sol mais lindo
cidade porto
cidade luz
cidade das chuvas de julho
cidade grécia
cidade colina
lisboinha tropical

salvador
tantas dores
e amores
a cidade que me deu a vida
me deu a orgya
me deu toda a alegria
meu porto
meu não-lugar
meu devir

salvador
força ancestral
desejo-te que se livre dos malditos
todos aqueles q usurpam sua força

povo da bahia
uni-vos
contra o malfeitor

longa vida velha senhora
minha preta, baia
são salvador

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DJ Sankofa na Vila Mariana (SP/SP)

Lembrando a antropóloga Goli Guerreiro e seu trabalho criativo sobre a Terceira Diáspora, apresento o DJ Sankofa. De origem Fante, Akan, ganês, DJ Sankofa responde no “passaporte” pelo nome de Justine Lloyd Ankai-macaidoo.

Figura conhecida em Salvador, o DJ é o timoneiro do Bar do Sankofa, no Pelourinho, um dos pontos mais agitados, multiculturais e divertidos da noite soteropolitana.

Ousado, o artista quer dialogar cada vez mais com o atual cenário nacional, onde o Brasil dá indícios de estar estreitando os laços com o continente. Justine adotou o nome do mito ganense Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer), um pássaro mítico que voa para frente tendo a cabeça voltada para trás. Vindo de um provérbio tradicional entre os povos Akan, o mito diz “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”, ensinando a possibilidade de voltar atrás, às nossas raízes, para poder realizar nosso potencial para avançar.

Veja entrevista com o artista que passou por São Paulo para tocar num espaço cultural da Lapa.

Você acha que tem sido responsável por levar música de África pra Bahia?

Acho que sim. Foi muito importante, uma coisa bem pensada antes. Bahia é o terceiro lugar onde existe mais negros no mundo. Existiam coisas que realmente deixavam Bahia fora da África. Existe muito desconhecimento musical, cultural, então por esse motivo eu fui para lá.

Você chega direto na Bahia?

Não, primeiro aqui em São Paulo. Eu era cabeleireiro na época. Trabalhei em São Paulo fazendo cabelos no salão e ganhei um concurso onde o prêmio era passar uma semana em Salvador. Fui e nunca mais voltei. Esqueci tudo. Esse ano era 2002, eu cheguei no Brasil em 2001. O Brasil ganhou a Copa e o Lula foi eleito para a presidência. Toda aquela festa. Eu fiquei de vez.

Que paralelos traçar entre a Bahia e Gana, Bahia e África? Além da cor da pele.

Eu acho que se a gente falar da África, é muito e grande e eu não conheço, mas mesmo assim posso dizer que tem muitas coisas. Culturalmente, coisas de antiguidade, a exemplo de ir na Liberdade e parece que estamos em Acra. O jeito de estar na rua, de se vestir, de botar toca. Se você não falar pode se sentir no mesmo lugar. Até musicalidade, vários ritmos, você sente o africanismo. Música é o começo, a chave de entrada. América do Sul e África não tem muita conexão, África está mais em conexão com Europa e Estados Unidos. Tem muita falta de conhecimento de achar que a música africana é só batuque. Acho que falta educação básica para estudar África e conhecer as diferenças de países. Muita gente pensa que é um país, é o maior continente da terra com mais de 50 países. Estou trazendo conhecimento da África do Oeste que tem mais a ver com Salvador, com o Brasil. Eles percebem que na África não tem só guerra, pobreza, doenças. Se eles fecharem um acordo de que África é tal imagem, não vai dar certo, e por isso estou fazendo este link.

E São Paulo se conecta?

São Paulo é uma grande cidade mundial. É um avanço, encontra-se gente de vários países na cidade. Mas não vejo grande fonte de cultura, um começo só. Economicamente tem vários africanos que moram aqui, vários consulados, mas não vejo o tipo de trabalho que se faz. Quando você sai de um país para o outro você está em busca de vida melhor. Eu venho de família pobre, humilde. São Paulo oferece trabalho, negócios, vendas de artesanatos, é um grande lugar de consumo, mas não sei que tipo de consumo os africanos fazem aqui. Conheço estudantes que fazem mestrado, doutorado, mas não sei a conexão do imigrante com São Paulo.

Quais suas lembranças de Gana?

Se eu começar a contar não termino. Família, principalmente. Estou longe da minha família há mais ou menos 22 anos. É este o tempo que sai da casa dos meus pais. Tenho lembranças das comidas, do futebol. Todo dia a gente joga futebol. Eu parei de estudar só pra buscar vida melhor que a família não oferece. Não tive condições de estudar porque meu pai não tem dinheiro, minha mãe morreu. Tem que botar a cabeça no mundo, dentro de Gana, fora da minha cidade, depois pra outros países e fora do continente. Comida, famílias, amigos, cultura, brincadeiras, praia, tudo me lembra.

E o povo Akan?

Akan é muito grande, é metade de população de Gana. Eu sou Akan, Fante, porque Akan é uma grande tribo que tem várias etnias. Grupos que fazem a diferença, exemplo Fante, Ashanti. Isso muda. Algumas tribos são únicas daqueles lugares. Fante só tem uma tribo em todo mundo, aquela língua só fala em um lugar, você não acha outro. Quando os colonizadores chegaram, não sabiam.

Como explicar a diversidade musical africana?

Parece tentar ver quantos peixes tem no mar. É muito rico e infelizmente a América do Sul não conhece as músicas africanas. Eu digo as de hoje em dia. A música africana, cada país, cada tribo, tem música nacional, tribal. É muito grande, não dá pra adivinhar. São diversos ritmos línguas, uma loucura, bilhões. A música de Gana começa a fazer sucesso em 1920 que tem highlife, funk, que até James Brown se inspirou. Afrobeat são as diversas músicas como funk, highlife, soul, blues, metais, é muito grande. A gente é muito cuidadoso. Mbalax no Senegal, Burkina Faso. O africanismo está mais na moda no Brasil, tem movimentação grande, principalmente no nordeste. Em Salvador começamos fazer isso há oito anos. Estou contente. O brasileiro está aberto pra conhecer Africa. Musica africana é o futuro. Fui pra Gana este ano e os europeus compraram tudo. Eles vão porta a porta. Você tem dinheiro eles vendem. Tem muita pessoa interessada na musica africana.

Por que Fela Kuti gostava tanto de Gana?

Gana é entrada e saída da Africa, do continente inteiro. Foi o primeiro a ganhar independência. Foi onde os colonizadores entraram, é pequeno. A riqueza de Gana era ouro, Gana era muito rica e pouco povoada. Quando ganhou a independência ajudou outro países como Burkina Faso, Guiné Bissau. Então não só Fela, a mãe de Fela era amiga de Kami Kuma. Então a mãe sempre levava Fela pra conhecer Kami Kuma, um guerreiro que todo mundo conhece, que incentivava o africanismo, que defendia a economia interna. Ele que brigou pra Africa ser unida e um próprio ganês traiu ele. A Africa nunca vai ser unida. Não existe. Assim como é impossível unir a América do Sul. Cada país é um país. É um grande erro unir Africa. Poucas pessoas comem a riqueza do mundo. Não tem paz sem guerra. Estou tentando mudar a imagem da África. As vezes eu falo: eu não sou africano. Eu sou ganês. Eu não chamo nenhum brasileiro de americano do sul.

Que música você faz hoje?

O som de Sankofa tem vários estilos e ritmos de vários países africanos e latinos. Escolho musicas tradicionais e tribais que a mídia não toca, que o glamour não admite. Tem comercial muito grande com musicas feias, esculhambação de mulher, com sensualidade, que fala de estupro, de mal tratos. Minha proposta é o contrario, tocar músicas culturais que trazem letra, poesia, com bem estar, historia, como o samba rock. Você não vê letras feias no samba rock, na MPB, então comparando as musicas, é como samba, samba de fundo de quintal, como Cartola, este tipo de artista. Eu mixo tudo e faço minhas produções em cima das músicas com os sons deles e toco musica latina como salsa, merengue, que também são tradicionais. Minha proposta é outra, música de dançar junto, que traga o amor, o bem estar. É isso aí.

Conheça o bar do DJ Sankofa: http://www.sankofabrasil.com/

Escute alguns sets do DJ Sankofa: http://www.myspace.com/djsankofaoficial

Sankofa em ação: http://youtu.be/iOmepOwAjQw

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noites sóbrias com a chuva que não cessa

em moscow os teatros já sabem que o brasil é um país de bárbaros

tecnizados

encontros adiados

o bebê do bruxo chega aos meus ouvidos como uma melodia milagrosa

da alegria

sonhei noutro dia que eu e você morríamos de amor numa cama com pele

de bezerro

explosão incontável

chega um tempo em que as coisas passam a ser simples

e uma aura de nenhuma controversa nos atinge

mas os ventos do sul ainda causam uma leve dúvida sobre a certeza das

coisas

eu não acho que a bahia é uma ilha

é o oriente

em que nosso país não está

como também não no ocidente

aqui é um entre-lugar

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A nossa prainha da Preguiça aqui na Contorno está no A TARDE de hoje

Lícia Fábio recebe famosos e deseja paz para Salvador

Aqui a poesia:

PRAIA DA PREGUIÇA

quero vadiar na preguiça

águas claras e movediças dos zagueiros

dos capitães de areia futebol clube

eles atiram pedras em pedras

eles brincam de samba

(…)

os ricos comem olhando a preguiça

seus barcos soltam óleo em nosso mar

seus esgotos, suas merdas…eles acabam com nossa praia

embaixo da ponte

o rei do maracatu não perde o horizonte

não perde uma carícia

quero amanhecer nos braços da delícia

preguiça

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