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Márcio Meirelles em

Márcio Meirelles em “As Palavras de Jó”, texto do dramaturgo romeno Matei Visniec (foto de Eduardo Coutinho)

Disse então o Senhor a Satanás: “Repa­rou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal (…)” [Livro de Jó – Cap.2 Versículo 3]

O dramaturgo Matei Visniec teve sua obra teatral completa publicada no Brasil em 2012. Não é exagero dizer que a Bahia foi um dos locais que melhor acolheu o romeno, mais precisamente o Teatro Vila Velha que hoje conta com cinco peças de Matei em cartaz. Numa atitude corajosa e independente daqueles que teimam em produzir arte no Brasil.

Fim de semana passado, estive rapidamente em Salvador e não pude deixar de ver o retorno de Márcio Meirelles aos palcos como ator, após 36 anos. Meu relato sobre o que vi é absolutamente pessoal até por minha proximidade com Meirelles.

A começar pela genialidade e intertextualidade do texto de Visniec, o Jó do espetáculo, ao contrário do Jó bíblico, é um personagem fiel ao humano. Com todas as atrocidades que passa, mantém incólume sua crença no valor da humanidade. Vivendo todo o terror do regime ditatorial da Romênia, a obra de Visniec é recheada de um vigor que aponta as dores e contradições profundas do homem.

Márcio, que sempre presou pela coerência tanto como gestor como quanto artista, parece criar um rito de iniciação em sua volta aos palcos. Com aparência sombria, claros e escuros que remetem ao Butô, não pude deixar de fazer relação com outro amigo do Vila Velha: Tadashi Endo. Meirelles mergulha fundo na frustração de Jó que sempre abre espaço para a redenção do humano, independente da consequência. Pela ira dos homens que chegam das quatro direções, Jó perde as mãos, os olhos, os ouvidos, a língua, mas sua fé na humanidade é imbatível.

Próspero afirma em A Tempestade (outro texto por qual Márcio é apaixonado) que somos feito da matéria dos sonhos. O cenário de palavras projetadas em “As Palavras de Jó” revela que, para Visniec, somos feito da matéria de nossos discursos. No princípio era e sempre será o verbo. É a palavra que carrega não apenas todo o material de trabalho dos atores, mas é o princípio básico de todas as nossas ações, para o bem e para o mal.

Em um mundo onde os ruídos, opiniões, discursos, agressões e palavras pululam nas redes sociais, o espetáculo mostra que somos, antes de tudo, aquilo que dizemos e executamos.

É compreensível a insistência de Matei para que Márcio encenasse e atuasse em Jó. É nesse ritual de sangue, carvão e cinzas que Márcio volta de corpo e alma para o palco, nu, inteiro, de cabeça raspada como nas cerimônias iniciáticas. É no palco do Teatro que ajudou a reerguer que renova sua esperança não só nos homens, mas no poder da palavra e sobretudo, no poder do Teatro. Merda!

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foto: Vinicius Carvalho

Ele já foi Pentheu, em ´As Bacantes´ de Eurípedes, Nicolau em ´Santidade´ de José Vicente e Raimundo em ´Através da Janela´ de Tata Amaral. De volta a São Paulo, o ator Fransérgio Araújo estréia dia 5 de abril no Teatro dos Satyros na Praça Roosevelt, o monólogo ´O Maldito´ de Isidore Ducasse. Mineiro de Uberlândia, Fran fala nessa entrevista da sua nova fase e de sua carreira:

Quem é sua inspiração? Quais são suas referências?

O que me aplacou neste autor foi, de fato a ideia real de transformação, a metamorfose . Algo que francamente todos nós desconhecemos. E eu descobri essa mudança entendendo no autor o que chamo de : “o nosso ser selvagem mais puro”. Fazemos de tudo para ocultá-lo . Mesmo aqueles que se julgam diferentes estão iludidos. A natureza se metamorfoseia o tempo todo . É preciso não ter medo disso.

O que mais me inspirou na obra de Isidore Ducasse, obra esta intitulada de “Os Cantos de Maldoror “, foi a capacidade e a propriedade que ele tem de possibilitar na consciência a libertação do ideal crucífero, trazendo à tona a crueldade humana, sem a hipocrisia que assola às consciências. Atualmente as cienciocracias se auto consideram, dignas do controle sobre o homem e até da providência divina. E isso é uma mentira. O ” ser selvagem” precisa ser visto. Nós não podemos sermos aprisionados numa visão egoísta do existir. Precisamos entender o mal. Só assim podemos nos libertar da culpa , do erro.

Minhas referências estéticas neste trabalho estão nos surrealistas André Breton, Paul Éluard, Hieronymus Bosch, e também no escritor Charles Baudelaire.

Como chegou no texto O MALDITO de Isidore Ducasse? O que ele representa para você e para sua carreira nesse momento?

Este livro chegou até a mim como presente do meu ex-diretor José Celso Martinez Corrêa em 2003. Para mim, pessoalmente, ele representa o entendimento da dor que todo individuo feliz ou não , passou ou vai passar em sua vida.

Está de volta a São Paulo para ficar? Como foi voltar a Uberlândia e o que andou fazendo por lá?

Na verdade quando sai do Teatro Oficina queria fugir da realidade do “teatro paulista engajado”, fui pro Rio de Janeiro trabalhar com Hamilton Vaz Pereira que sempre idolatrei pela história do seu artista. A verdade é que com este trabalho eu encerro a mitificação que todo ator tem pelo diretor . Quero dizer com isso, que nós atores buscamos ser lapidados por diretores mais isto é uma mentira porque quem lapida de fato o ator é sua vida na arte, então estou de volta sim a São Paulo pois aqui sem dúvida é o polo para criação, teatral não temos outra cidade no Brasil com este estofo.

Em Uberlândia fiz um resgate de raízes me considero um retirante como muitos colegas de profissão espalhados pela terra (rs), voltar ao seu lugar de origem sempre te redimensiona para ir mais longe. Mais sempre que vou a minha terra natal procuro mostrar o que estou fazendo, me sinto reconectado com minha essência.

Você fez diversos trabalhos importantes no Teatro Oficina. O que traz dessa experiência?

Muitos dizem que o Teatro Oficina é minha escola , mas na verdade minha escola sempre foi o teatro, o teatro é a melhor escola para qualquer um. No Oficina me sentia, de fato, fazendo teatro de verdade, acho que temos um ideal filha da puta de teatro, achamos que tem que ser sofrido e transformador, mas isso é falta de cultura (rs). Por isso nos atores somos simbolo de transformação; digo (rs) conseguimos sobreviver na economia brasileira, pois sabemos que assim como o trabalhador assalariado, nós nos desdobramos e nos defendemos ganhando muito pouco, claro que retiramos desta lista as celebridades e os aceitos pelos mecanismos de cultural. Mas, de fato, sinto que a experiência no Oficina me ensinou a me defender diante de qualquer peça que precise atuar.

O teatro ainda tem poder hoje?

O teatro tem muito poder até hoje, mesmo estando hoje, sendo a casa de poucas evoluções sistêmicas, estamos guetados na sociedade e digo isso com certeza. Até no teatro de vanguarda vivemos uma exaustão de possibilidades. Mas acredito que o poder do teatro aumentará, e sabe por quê? Chegaremos as lindes deste sistema e tudo terá de ser de novo táctil, para todos. O teatro é a única experiencia que te faz pensar no mundo exatamente ali no ato do acontecimento cênico, talvez seja a mais rápida captação de informação possibilitada pela cognição. Ver o ao vivo. O teatro te faz: ser,existir, pensar, sentir, ver, ouvir, intuir, analisar e conceber. E isto nenhuma outra arte possui, ou estou enganado? (rs)

Você tem algum projeto inacabado, algo que gostaria de ter feito e ainda não fez?

Sim tenho. Eu tenho uma adaptação que fiz da peça “A Exceção e a Regra” de Bertold Brecht, que me arrependo de não ter terminado de fazer, ou seja, ensaiamos e não levamos à público. Pra mim esta peça, traz a metáfora irônica, sobre aquela pessoa que tem que produzir para viver. E isso é a raiz do comercio, do capital, do desenvolvimento. Todos acreditam piamente nisso como explicação para vida. Penso que nesta livre adaptação que fiz , eu a chamo de “A Corrida do Deserto”. Nela eu rio desta necessidade de que, o “ser”, têm que produzir riquezas materiais para existir de fato. Brecht com seu teatro politico tinha total abarcamento disso, só fiz atualizar.

SERVIÇO: Espetáculo O MAL DITO, inspirado em Isidore Ducasse, interpretado por Fransérgio Araújo, a partir de 5 de abril no Espaço Satyros IPraça Roosevelt, 214 | Informações: (11) 3258-6345 em São Paulo – SP.

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Ele canta, dança, divulga as tradições culturais brasileiras em Boston. Há 8 anos vivendo nos Estados Unidos, o ator nascido em Vitória da Conquista fala de sua experiência em terras norte americanas, suas impressões sobre o Brasil. Robson coleciona histórias incríveis, muitas impossíveis de serem relatadas, mas que acabarão um dia indo para as telas. Atualmente, ensaia “Navalha na Carne” de Plínio Marcos, que tem estréia prevista para março. Robson interpretará o papel de Veludo, um veado “tinhoso”, nesse que será seu primeiro espetáculo em inglês.

Marcelo de Trói: Quando você pensa na Bahia aqui no Hemisfério Norte…
Robson Lemos: Me lembro de um dia em que eu estava confuso, triste pela Avenida Sete, e fui parar no Porto da Barra. Lá eu chorei vendo o por do sol. Lembro dessa cartase da Bahia que faz você estar presente na terra.
MT: Como foi chegar aqui? E como a Bahia está presente aqui?
RL: Quando eu cheguei em Salvador eu fui saber o que era sertanejo e quando cheguei nos Estados Unidos descobri que eu era brasileiro e baiano. De estar bem com tudo, com a neve e estar curtindo agora, por exemplo, esse frio de dois graus nesse feriado americano: o Thanksgiving que é o Dia do Peru. E o que é este feriado? Num periodo de muito fome, muita miséria, de muito frio, os americanos não tinham o que comer, e o que começou chegar em bandos ao redor, perus, cantando alegremente. Eles são o símbolo do Thanksgiving, do agradecer, foi o peru que ajudou a matar a miséria nesse período de grande fome.
MT: E por isso tão importante toda essa cerimônia, até na Casa Branca, quando presidente dá o perdão para o peru (risos). Assisti ao vivo pela internet.
RL: Interessantíssimo. E isso significa que o americano não quer mais sofrer esta miséria, quer continuar em ambundância.
MT: E como você acha que toda essa cultura louca interfere na sua arte?
RL: O mundo está extremamente globalizado e eu consigo ver a globalização do Brasil. Existe tanta diferença, mas tudo está tão proximo. A diferença ainda é a política, a economica e principalmente, a questão da Justiça. Se eu pudesse falar asssim, o que mais me irrita, o que mais me deixa inseguro na volta para o Brasil é a questão da Justiça. Todo mundo come lá, vive feliz com o pouco que tem.
MT: E aqui também.
RL: Aqui também. E ninguém aqui é rico, mas a questão da Justiça pesa muito. A impunidade. O Brasil tem uma coisa terrível em relação a isso e que precisa ser mudada. Uma coisa que sempre trabalho na minha arte é a necessidade humana. Algumas necessidades são básicas para todos os seres humanos, independente da língua. Uma delas: o amor. Envolve todo mundo. As necessidades físicas, a força da fome, a força do desejo, tudo pode ser colocado na arte. A força da sede. São universais e atingem a todos.
MT: Você é de Vitória da Conquista e traz um pouco dessa coisa da fala, uma coisa forte, você tem um pouco da verborragia baiana, ao mesmo tempo tem uma coisa forte, de sabedoria. Tem uma força do Sertão em você.
RL: Não existe espaço definido onde vai acontecer o movimento. Existe força e o movimento dentro de cada pessoa. Você tocou nessa coisa do sertão. Pois eu vou te contar uma: na minha infância, minha família foi convidada pra ir para um casamento em Vista Nova. Uma vila muito pobre. A moça andou várias léguas para casar e ela andou de vestido de noiva. Teve que andar descalça por que não aguentou, aquela terra vermellhar, coisa linda, aquela terra dura do sertão e todo mundo atrás dela. Coisa linda. Fomos até o lugar, rolou o casamento e o pai da mulher matou bois, galinhas, aquela farofa, aquela festa linda. O que achei mais lindo no meio disso tudo, é que apareceu um senhor, todo de branco, muito distinto, e esse senhor me fez um discurso que não entendi muito bem porque eu era criança, mas era tão bonito. Depois eu procurei saber quem era e meu pai disse: aquele senhor é uma pessoa de pouca escolaridade.
MT: E quantas experiência você não deve ter tido, porque o sertão tem essas figuras maravilhosas, mestres, beatos, gente com um outro tipo de conhecimento. Você cresceu sonhando em ir pra capital?
RL: A minha necessidade não era ir pra capital porque eu acho que não sou uma pessoa urbana. A minha questão era ir para um lugar diferente, conhecer culturas diferentes. Quando eu sai do sertão e fui pra Salvador foi diferente. O sertão me trouxe poesia. Salvador me trouxe uma coisa física, é uma cidade viril, uma cidade sexual. Naquele momento eu me fragilizei porque eu estava dentro do meu próprio corpo e interagindo com tudo, enquanto homem e enquanto artista. Eu posso dizer que na minha vida o que eu tinha pra sofrer eu sofri em Salvador. Eu me criei em Salvador, com resistência. Salvador tem uma coisa violenta presente na coisa física e na pobreza. Eu acho que foi válida a experiência. Em Boston, foi a comunicação. De você conseguir ler todas essas experiências e conseguir se comunicar. Porque o artista é um comunicador. Isso envolve tudo, conteúdos, comentários.
MT: Se você tivesse que dar nomes a quem te influenciou.
RL: Eu gosto muito do Caetano Veloso, da arte, da música. Eu tenho aquela coisa baiana de gostar de Caetano, Bethânia, normal. Mas tem uma coisa de amar Elomar Figueira. Esta semana eu escrevi um roteiro ouvindo a música de Elomar Figueira. Que traz coisas gigantescas do sertão, muito forte. Mas aqui nos Estados Unidos eu amo música de preto porque eu amo a percussão, então tudo que é rap, reggae, tem um cara inclusive que é da Jamaica, influenciado por Bob Marley, Sean Paul, ele é fantástico, tem músicas maravilhosas, mistura reggae jamaicano com hip hop. Levanta. E ligado a questoes politicas. Tenho amado a Beyonce que é negra, jovem, tem um trabalho lindo.
MT: Você me falou de um conhecido que parecer ter conseguido o primeiro asilo político por provar que os direitos LGBT não são respeitados no Brasil…
RL: A gente começa analisar as coisas de forma individual, e com isso a gente acha que o problema é nosso ou do outro. O que eu quero dizer com isso: quando você a questão da homossexualidade no Brasil e nos Estados Unidos existe grande diferença. Aqui, você vê uma questão de ordem política e de direitos, e é uma questão maior. Vendo assim, também podemos comparar uma coisa e outra. Um conhecido que mora aqui há 20 anos, foi pego pela imigração, sem documentos, e ele disse a juíza: eu estou aqui há 20 anos e me sinto bem em estar aqui pela questão do respeito ao homossexual. Ele sabia que se vivesse no Brasil poderia estar morto. A juíza ficou comovida com isso e pediu a ele que provasse. Durante três anos, ele juntou vários eventos de assassinatos de abusos contra homossexuais e consegui um asilo, digamos. Foi uma proteção a vida dele.


Robson Lemos em seu quarto em Somerville.

MT: Foram muitas lutas. A revolução contra a escravidão começou aqui em Boston, tem um outro olhar, uma herança…Um sentimento de Justiça, tipo, o cara do spray de pimenta que atacou os estudantes na Califórnia, foi afastado…
RL: Eles tentam controlar o abuso do poder, vetar o abuso do poder, coisa que no Brasil, infelizmente, não é controlado. No Brasil, se o cara é policial e ele te aborda na rua, ele te dá um tapa na tua cara, um murro no teu peito e acabou. E daí? Você vai reclamar que ele fez isso com você? Quer dizer, eu acho que aqui existe uma preocupação de nivelar as pessoas. Quer dizer, a polícia tem o seu papel dentro da sociedade, mas ele tem o limite. Isso é sociedade. Não é porque você tem um revólver na mão ou porque é um político, você pode abusar do poder. Isso é terrível.
MT: Ainda tem um pouco daquele ideal da “América”não é? Uma terra dita “livre”, com oportunidades iguais. Isso foi forjado aqui em Boston e engraçado hoje ser Thanksgiving, e eu vi ainda pouco algumas gravuras dos colonizadores sentados com os índios. Quer dizer, esses valores ainda são perseguidos pela sociedade americana, mesmo com toda a corrupção. 
RL: Eu nunca tive oportunidade de conhecer os nativos americanos. Os índios. Então eu fui convidado pra ir até Nebrasca para um congresso de arte e educação com Augusto Boal. Passei uma semana lá. Uma cidade que tinha milho, e eu comi milho até não querer mais. Tudo muito barato, as pessoas muito hospitaleiras, eu chegava nos lugares e ninguém deixava eu pagar nada. Eu senti uma coisa de interior, do sertão da Bahia. Resultado: rolou o congresso, umas 500 pessoas do mundo inteiro fazendo homenagem ao Boal, e eu conheci um índio. Aquele cabelo preto, aquela cara, eu achei que era mexicano, fui falar espanhol com ele. Ele disse que não falava espanhol e que era índio norte-americano. Native india. Ele usava pena, tava lutando por questões ecológicas dentro da teoria do Boal. Foi um encontro fantástico. Em determinado momento, a gente estava num auditório enorme, lotado e Boal disse em inglês: “A Constituição desse país, precisa ser revista, porque ela é uma brincadeira, como você pode fazer a constituição de um país inspirado na Bíblia. Religião e política não tem nada a ver”. Ele falou isso e foi muito forte. Ele falou com um desdem, sarcastico. É muito poder, muito conhecimento para você chegar em um país, dentro de um auditório de uma prefeitura e fazer uma afirmação como essa. Eu achei muito forte. Pra eu quebrar minha opressão, a primeira coisa que fiz foi tirar minha sandália, avisar todo mundo, e depois disse que meu inglês não era tão bom mas que eu iria falar do jeito que eu poderia falar, sem opressão. Comecei assim.
MT: Há quem critique a terminologia Teatro do Oprimido.
RL: Eu acho que o Teatro do Oprimido é só uma terminologia para dizer que todo mundo é oprimido. Acho que temos que descobrir a opressão e liberar. Eu queria contar um fato interessante que aconteceu comigo aqui na estação de Beverly, Massachussets, onde estamos chegando agora. Tinha uma moça bonita na estação e ela falou em português: Robson, tudo bem? Você não se lembra de mim. Eu olhei pra ela assim, surpreso, e disse, “mais ou menos”. Ela disse assim: eu sou esposa de fulano de tal. Era mulher de uma das pessoas que trabalhava comigo no restaurante. Em questão de minutos, ela começou a falar da vida dela para mim e ela disse que nos sete anos que ela ficou no Brasil sozinha, ela arranjou um outro homem lá, porque mulher, não consegue viver sozinha, depois que tem marido. Ela me falou que assim que chegou aqui ela percebeu que tinha todos os direitos que ele tinha e que o mais importante naquele momento é que ela tinha o direito, e era oportunidade, de trabalhar e fazer o dinheiro dela. Ela disse que estava pensando em se separar. De início eu posso te dizer, se eu fosse usar minha questão moral de homem que nasceu e cresceu no Brasil eu poderia dizer: é uma mulher, digamos, sem moral, sem escrupulo? Mas tendo uma visão internacional, eu posso dizer assim: ela é uma mulher que está a procura da independência dela. Mulher aqui tem muita oportunidade aqui, mais que no Brasil. Então existe muito conflito entre brasileiros que vêm para cá. A conquista econômica é muito forte e o brasileiro, infelizmente, tem uma coisa muito machista dentro dele. A mulher aqui é muito protegida pela lei. Tem tanto abuso no Brasil.

Assista este curta com Robson Lemos:
Venha ver o por do sol

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Bença, upload feito originalmente por João Milet Meirelles..

`Ò pobres ! O vosso bando
É tremendo, é formidando !
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo…
(…)
E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.
E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece,
(…)
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho`

Litania dos Pobres, João da Cruz e Sousa (1861-1898).

Sobreposição de vozes, de sons, de fatos e de lembranças sob o rigor da plasticidade: isso é ´Bença´, espetáculo comemorativo dos 20 anos do Bando de Teatro Olodum. O diretor Márcio Meirelles evoca o poder ancestral para comemorar a entrada na vida adulta deste ´bando formidando´. Coloca em cena o respeito aos mais velhos, o reconhecimento do tempo como o grande forjador dos dramas e histórias humanas.

No espetáculo é evidente a tentativa de reconstrução dessa dramaturgia que engendra afro-brasileiros. Reconstrução que universaliza e problematiza não só a questão da Diáspora, mas a própria questão da velhice, de um país que não se preparou para as mudanças da sua pirâmide social.

Quem costura o enredo da peça é a fala de artistas, religiosos, humanistas, ícones da cultura popular: Bule-Bule, Cacau do Pandeiro, D. Denir, Ebomi Cici e Makota Valdina. Eles refletem sobre o Tempo (Chronos), falam sobre seus cotidianos, costumes, heranças, tradições. Em especial, é a fala de Valdina, do Terreiro Tanuri Jussara, espécie de conselheira das questões sócio-culturais da Bahia, que norteia o espetáculo.

Concordo com as palavras do diretor quando classifica o trabalho como Teatro Instalação. É o espetáculo mais plástico do Bando e aquele onde o talento do artista plástico Meirelles estáem ação. Seujogo de claro-escuro dá pistas da linha butô que deve aprofundar no trabalho futuro com Tadashi Endo.

´Bença´ evoca a necessidade de conhecermos nosso passado. O retrato de Mário Gusmão (1928-1996), primeiro ator negro na Escola de Teatro da Bahia, e os poemas de Jônatas Conceição da Silva, poeta e líder do movimento negro, falecido em 2009, estão presentes no espetáculo. Muitas outras imagens de atores negros baianos, grupos e experiências de artistas-atores negros também são projetadas, e nos levam a reflexão sobre o registro e história das Artes. Somos um povo sem memória, é fato. Onde estarão todas aquelas pessoas?

O Bando conduz a peça com naturalidade espantosa. Embora o conjunto me agrade, gostaria de citar a tríade de atrizes: Arlete Dias, Auristela Sá e Rejane Maia. Arrepiante o momento em que o ator Jorge Washington pede a ´bença´ a todas as casas de Candomblé da velha cidade da Baía. A belíssima coreografia criada por Zebrinha merece destaque. Leveza e simplicidade dos corpos linkadas a todos os detalhes da direção de Meirelles, com forte referência nas danças de terreiro.

Márcio é obstinado pela coerência. Declarações dadas por ele há 13 anos, ainda fazem sentido e não destoam do discurso do artista em 2011. Fruto desse rigor conceitual, não há lacunas em ´Bença`. A peça comprova, primeiro, que vivemos uma época multi e pluricultural e que o teatro precisa dar conta de dialogar com essa época; dois: de que esse discurso transformado em ação é coerente com os 20 anos do Grupo; e três: a constatação de que o Bando de Teatro Olodum é um dos mais importantes grupos teatrais do Brasil.

Makota Valdina, espécie de Ariadne nesse espetáculo, dá autenticidade a ação, comprova os saberes da mitologia afro brasileira, numa teia complexa que une vídeo, música, gestos e falas. Tudo ao mesmo tempo agora.

Esse chão de fato tem dono, e o Bando não está sozinho no palco do Teatro Vila Velha quando entra em cena, como alerta Makota Valdina em uma de suas falas. Ela tem razão. Estão com eles, Xisto Bahia, De Chocolat, Mário Gusmão, Abdias Nascimento, Grande Otelo, Sérgio Guedes, Lázaro Ramos e muitos outros vivos e mortos, anônimos ou não. Resistência histórica. Teatro de códigos, culturas e sotaques. Na Bahia, só o Bando poderia chegar aonde chegou, dando voz ao povo negro, colocando em pauta assuntos tabus. Com ´Bença´, o Bando reiventa nossa cultura, nos sensibiliza ante as duas principais mazelas contemporâneas: o esquecimento e o maltrato.

A bença, Bando!

 SERVIÇO

Concepção e encenação: Márcio Meirelles

Onde: Teatro Vila Velha

Elenco: Bando de Teatro Olodum

Quando: até 29 de maio

Horário: Sexta e sábado às 20h e domingos às 17h

Preço: R$40 e R$20 (meia)

Promoção: os 50 primeiros ingressos, de cada sessão, serão disponibilizados a R$ 15 (preço único). Até 24h antes de cada espetáculo. Instituições e escolas: compra acima de 20 ingressos preço único R$ 15

Informações: (71) 3083-4607 bando2@gmail.com

www.bandodeteatro.blogspot.com

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de Laerte.

by Zakalé.

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