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A menina vestida de rosa  carrega um cartaz com o slogan: Ditadura AI2, e dizia “Anauê, meu povo”. Um amigo jura que era nordestina pelo sotaque. Um menino branco, monstro de luta, tinha um capacete na cabeça e uma bandeira de São Paulo nas costas. “Non ducor, duco”. Disso aqui vai sair o fascismo, diz meu advogado que é quase meu psicólogo. O outro, que já invadiu a reitoria da USP, berra: tucana filha da puta. Na avenida, meninos que parecem ter faltado a aula de integralismo, ou não, mandam Dilma tomar no cu.

Nem as bombas de gás pesaram tanto como na noite passada.

Ele me diz que entraria na onda integralista para a salvação, por falta de grana e trabalho. Fanfarrão. Raul Seixas. Advogado defende tudo. “Chega de nhem nhem nhem e medianismo. Sem eufemismo”.

Uma garota passa com um cartaz: “Menos Estado, mais boy magia”. Vejo uma criança vestida com uniforme da polícia militar, protegida pela mãe. A multidão verde amarela canta que tem orgulho de ser brasileira. Sinto o cheiro do ovo da serpente crescendo no nacionalismo. Feliciano ameaça o governo. Caos. A classe política é culpada. A ditadura é culpada. TFP. Espiar a  história. Espiar. A encruzilhada da Maria Antônia. O século XXX não chega.

Policiais me olham e riem. Sabem de toda o drama, toda a novela. Dois carecas me olham. Um casal chega dizendo que alguns carecas estavam subindo a rua Augusta. Olho para os policiais e os vejo como anjos. Síndrome de Estocolmo.

Tenho delírios de que tudo parece estar a beira de uma guerra civil. Fluxo de ruídos da opinião pública e da marquetagem. O narciso se encanta com a auto imagem do caos. O gigante acordou com um bafinho, diz o pessoal do PosTV. Todas as contradições e ideologias estão nas ruas. O resultado dessa equação terrível e complexa vai definir o que queremos ser.

Ano que vem tem eleições. A Abin está nos vigiando seguindo o exemplo dos yankees. Até quando a confusão, a dúvida, o pessimismo a falta de oportunidades, não estou falando do pedaço que me cabe  nesse latifúndio. Quem estaria disposto a perder seu conforto e fazer uma nova vida coletiva?

Um fotografo estrangeiro e uma garota descolada reclamam do ataque aos petistas. “Se tivesse um caminhão de som aqui, abrindo para dialética, eles poderiam virar o veículo de ponta cabeça”. No Rio, uma bandeira da CUT foi queimada. “Se a gente sequestrasse o Zé Dirceu, um embaixador boliviano e obrigasse a soltar os corintianos”. Em frente as câmaras de TV na Praça do Ciclista, alguns jovens continuam seus gritinhos e coreografias.

Na capa do NYTimes ela recebe gás de pimenta na cara e vai ser indiciada por vandalismo. Ele manda derrubar casas e expulsa 5 mil famílias e vai gastar dinheiro público em Paris. Ninguém vai pongar em luta alheia. As bichas que se armem e que vão para as ruas. Ou  não. Ou sim. Em mais uma semana, se colocar uma tela, vira jogo da Copa.

Nada de MPL, agora é a revolta e a festa popular. Popular? Hoje sinto cheiro de perfume aqui.

Alienados de esquerda. Alienados de direita. Parece um dia atípico nas manifestações. E parecia tanto amor esses dias. De onde saiu essa gente? Carnaval e coro dos meninos da Veja. A policia assistia atônita. “Globo vai tomar no cu”. Por esses dias, queimaram um carro link da Record. Hoje um carro do SBT.

Nós somos o quê? “Eu sou do povo”. Anarcopunk. Luta de classes para ele é atirar primeiro e perguntar depois. Quem não reagir, não vai morrer.

Os helicópteros não param. Nos últimos sete dias, barulhos de bombas são comuns.

Não quero que o Brasil vire um Irã de Jesus. Meu advogado me diz: quero que todo mundo seja radical sim. Anarquista. Anauê! “Vem cá minha filha, você é diferente dos outros. Essa manifestação está muito moderada. Mete o ferro. Vai em cima”. Quando o gás chega ela não está.

A trolagem, o bullyng, cartazes dizem: Dilma é sapatão. Governo Dilma figa.

McDonalds funcionou na Paulista e não foi apedrejado.

Salvador tremeu mesmo indignada com seu metrô ruína e os velhos métodos prevaleceram. A regra é geral: sai governo, entra governo, mas a polícia é a mesma que repele os manifestos que apontam que o “Rei está nu”. A mesma polícia. Brasil miliciano.

Penso no Rio de Janeiro. Na imagem linda da Candelária. Ou na Faria Lima coberta de gente. Havia um clima de amor. Sonho com a mudança. Clamo Saramago. As imagens da Joana Angélica veem a minha mente. Minha Salvador, tão castigada. Povo lindo, o povo da Bahia. Não há espaço para o amor no meio da indignação?

“A gente tá militando e não sabe por quê”. Noves fora. Alegria.

Salve, meninos de Pirituba. Da Nova Cachoeirinha. Salve o Grajaú! O povo acordou foi o cu de vocês que dormiam até meio dia. O povo luta há muito tempo e nunca parou de lutar.

Wall Street. Praça Tahrir.

Tantas vozes.  Polifonia. “Depois não vai ficar falando mal de mim, mano”. Amigos desolados. Vambora! Eu vou embora. Tanta solidão.

Ai, essa terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um império colonial exportando soja pra China. A agencia rebaixou nossa nota. Vira-lata. O Brasil tá parecendo a Europa.

Fora de tudo, Pedrão. Fora de tudo.

Mãos dadas e coragem. Agora é conversar, desfazer nós e abrir o olho da meninada cabaço.

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As capas da Folha

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Acarajé, feijoada, churrasquinho, centenas de pessoas com a camiseta verde amarelo. No palco, a axé music é a grande estrela da festa, cabrochas, inglês e português misturados são os idiomas na beira do Charles River, em Brighton:  é o 16 Festival da independência organizado pela comunidade brasileira em Boston, cidade com o maior numero de imigrantes na América, algo em torno de 400 mil pelos dados oficiais do Ministério das Relações Exteriores, mas muito maior se levarmos em conta o numero de imigrantes ilegais não contabilizados.

A comunidade brasileira é querida pelos americanos e muito organizada. Os brasileiros são donos de rádios, padaria, bares, mercados, empresas. Também trazem uma espécie de alegria que falta em todo o mundo organizado e ultra desenvolvido dos Estados Unidos. Tudo aqui é familiar para nossos olhos, também por conta da imigração portuguesa no inicio do século passado. Hospitais, bibliotecas, centros comunitários, em algumas áreas, como hospitais, informações bilingues.

Os Estados Unidos aprenderam a conviver com a imigração nos últimos 150 anos. Mais que isso, hoje os imigrantes são mão de obra importante no mercado americano e também tornam esta sociedade cada vez mais multi cultural, como é o caso de Nova York, uma cidade internacional com 50% da população pertencente a mais de 180 diferentes paises.

Brasileiro aqui em Boston faz de tudo, limpa casa, escritório, trabalha em restaurante, cuida de criança. A limpeza é mais leve que a brasileira, o patrão bem menos exigente, pois os americanos não são muito chegados em limpeza. Serviços que são dignos e bem pagos por quem pode ter o luxo de contrata-los. A maioria dos brasileiros esta aqui há mais de 10 anos, alguns 20. Uns conseguiram seu papel (cidadania) casando com americano ou com outro brasileiro que tinha papel, outros vivem clandestinamente, mas nem por isso deixam de ter seus direitos. A policia pode até te parar na rua, o que é raríssimo, tanto que muitos dirigem sem carteira, mas não vai se meter na questão imigratória que diz respeito a outro departamento. Aqui é cada qual no seu cada qual.

Os brasileiros se misturam muito pouco com os americanos. Vivem num mundo a parte, mantem hábitos nacionais, em bairros (que na verdade são cidades com administração própria), a exemplo de Somerville, que acabam ganhando uma identidade.

Um amigo me diz que 80% dos que estão aqui são evangélicos. Se adaptam bem a velha combinação capitalismo/protestantismo. Trabalham cerca de 20 horas por dia, de segunda a segunda. Alguns ficam mais americanos tradicionais e conservadores do que os nativos. É de casa para o trabalho, do trabalho para a igreja. Estou ha 10 dias em Boston, aproveitando cursos, os parques, desfrutando do ambiente de conhecimento da cidade, sede da Harvard e do MIT, e já conheço a cidade mais que alguns deles.

No olhar desses brasileiros, muitos não podem sair do pais pois estão ilegais e isso significaria não voltar mais, vejo um ar desilusão. É como se estivessem perdidos no limbo, estrangeiros, exilados aqui; e talvez se voltarem ao Brasil, onde tudo é muito diferente, passariam a sentir o mesmo. Muitas vezes me parece um caminho sem volta.

Lamento que nosso pais não de condições para as pessoas viverem, tanto as que estão aqui como para milhares que continuam la, enfrentando dificuldades. Todos sabem que num pais elitista e escravocrata como o nosso, nem mesmo quem tem diploma universitário pode conseguir o nível de vida que se tem aqui. A grande duvida pra quem pensa em voltar: oportunidades nas terras brasileiras, mantendo um padrão minimo de vida.

Nos EUA, apenas com o segundo grau ou nem isso, eles tem a chance de ter sua tv de plasma, seu celular, carro, uma moradia digna, comem do bom e do melhor, pois tudo é infinitamente mais barato. Alguns ganham 10 mil dólares por mês. Vivem ‘ bisados’, aportuguesamento de ‘busy’, ocupado, em inglês. Trabalho não falta. É dinheiro vivo na hora. Em uma semana se compra um carro, roupas, computadores. Como disse Contardo Calligaris em artigo recente na Folha comentando os saques em Londres, o consumismo passou a ter a legitimidade de coisas essenciais na vida. São marcas de identidade, de independência, de conforto. Quem não gosta de viajar? De ter suas coisas? De poder comprar, se alimentar decentemente, de navegar na internet?

Entendo agora quando se diz que a América é a terra das oportunidades e os brasileiros ‘cucarachas’, parodiando Henfil, que não tem medo de trabalho e nem preguiça, nadam de braçadas. Estigma de preguica aqui é com a comunidade espano-latina.

Os tempos não são dos melhores com a crise, muita gente voltando, muita gente que não ganha mais como antes. Alguns ganham para sobreviver. Os brasileiros aqui se organizam, se unem em associações que lutam pelo direito do imigrante, a comunidade é atuante. Tenho vontade de lançar um movimento de repatriamento dessas pessoas, o Ministério inclusive tem uma cartilha chamada Guia de Retorno ao Brasil, porque não é uma decisão fácil e pode vir acompanhada de traumas, pois eles construíram uma vida inteira aqui.

Penso que nossos brasileiros americanos podem ser muito úteis para o nosso pais, com sua força de trabalho, sua experiência em uma sociedade livre, seu senso de justiça, indignação, democracia e vigilância que desenvolveram por essas bandas.

Me chocam os relatos e as experiências e espero ter tempo para escrever algumas coisas aqui; estou também tentando entrevistas. A maioria dos brasileiros vem de Minas e muitos atravessaram a fronteira do México, sem nada. Uns foram presos, depois libertos, alguns conseguiram o perdão, outros foram soltos e continuam ilegais, outros deportados. Gente que largou a família aos 16 anos, pessoas que se juntaram aos pais que já viviam na ilegalidade por aqui, gente que casou e 6 meses depois veio para cá sozinho. Historias de separações, de sofrimento, de vitoria, de fé, todas em busca do chamado ‘sonho americano’, ideal que alimenta a movimentação de pessoas em todo mundo desde o século XX, principalmente no pos-guerra.

Massachusetts, uma das 13 colonias rebeldes, mantém uma certa tradição libertaria e não adotou a lei federal de imigração que pode perseguir os imigrantes em seus trabalhos ou quando aparecem no hospital e deporta-los. Mas isso as vezes acontece por aqui, me explicam. Cada caso é  um caso, são mil fatores. A imigração sabe onde cada um deles esta, mas esta sempre tudo bem. O direito ao trabalho é um principio forte nos EUA, para todos, sem distinção.

Esta noite, milhares de brasileiros vão dormir quatro ou cinco horas para pegar no batente amanha, em dois, as vezes, quatro postos trabalhos. Enviam dinheiro para suas famílias, guardam na poupança sonhando com o dia da volta, para um lugar que talvez só exista em seus imaginários. E para os que estão no Brasil e ainda acreditam nele, como eu, é tempo de sonhar com um pais sem corrupção, com um Estado de Direito real. Torço para que esse dia chegue logo e que nossos irmãos possam voltar em paz para o nosso gigante multicolorido e juntos, quem sabe, não construiremos de fato um pais justo, dividindo o bolo que vemos crescer diariamente.

A esperança é a ultima que nasce. Tudo a fazer.

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